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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

E se não comêssemos carne à sexta-feira?

22 out, 2021 • Opinião de Henrique Raposo


A recuperação do hábito de não comermos carne à sexta-feira seria uma boa maneira de os católicos conjugarem a disciplina na consciência religiosa com a disciplina na consciência ambiental

Era um ritual praticado todas as sextas-feiras pelos católicos; não se comia carne, mas depois o mercado e o apetite passaram a falar mais alto: como o acesso à carne passou a ser fácil e barato, o hábito foi desaparecendo, até ficar preso na baliza da Quaresma. E agora nem a abstinência da Quaresma é particularmente observada. Contra mim falo. Nunca segui estes critérios exteriores da fé. No entanto, estou a pensar integrar esta ideia na forma como vemos a comida aqui em casa. Explico porquê.

Esta abdicação da carne tem um simbolismo religioso óbvio: jejum, penitência e abdicação. Estes conceitos e práticas são coisas ultrapassadas e sem sentido numa sociedade “moderna”? Não, a abdicação da carne (ou de outra coisa importante) é uma forma do crente dizer que não é o centro do mundo. Esta renúncia tem um valor moral em si mesmo, sobretudo porque vivemos numa sociedade de consumo exacerbado e de permanente fetichismo da mercadoria (perdoem-me o marxismo deste termo). Por exemplo, e se os miúdos abdicassem do hambúrguer e do telemóvel, ou da consola e ou da Netflix à sexta-feira enquanto exercício de educação moral e, já agora, cívica?

Além do seu valor religioso, o jejum de carne tem hoje em dia um evidente valor ambiental, como salientou Doug Girardot na “America, the Jesuit Review”. A criação de gado bovino é responsável por uma parte significativa dos gases de efeito estufa (10%) e, acima de tudo, esta pecuária intensiva destrói todos os anos milhões de hectares de floresta.

Portanto, se me permitem, volto a uma ideia que me parece fundamental: não temos de deixar de comer carne, como pretendem os vegetarianos, mas temos de produzir e comer carne de outra forma. Isso é evidente. Como dizia o Expresso na semana passada, num trabalho de Maria João Bourbon, os portugueses consomem 3,5 vezes mais carne do que a dose diária recomendada. Não é preciso comer carne todos os dias e em todas as refeições. A indústria da carne é de facto algo que temos de mudar, sobretudo a indústria do gado bovino. Temos de comer menos carne e temos de diversificar a carne que comemos. Temos de saber comer outras carnes; por exemplo, coelho, ovinos e caprinos. Criar coelhos, ovelhas e cabras é uma atividade menos intrusiva e destruidora do meio ambiente. Aliás, o coelho parece-me de longe a carne mais amiga do ambiente, além de ser uma maravilha no forno, diga-se. Esta é outra tradição que convinha recuperar em nome da tal ecologia: comer coelho.

Bom, a recuperação do hábito de não comermos carne à sexta-feira seria uma boa maneira de os católicos conjugarem a disciplina na consciência religiosa com a disciplina na consciência ambiental; é uma forma de dizermos que não somos o centro do mundo, que há forças e valores acima dos apetites do meu “eu”; neste caso, há Deus e a natureza.

Comentários
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  • João
    25 out, 2021 Porto 11:36
    Concordo com a argumentação de Henrique Raposo.
  • João Lopes
    24 out, 2021 Porto 10:00
    Excelente comentário.
  • João Lopes
    23 out, 2021 Porto 09:56
    Excelente análise.
  • Ivo Pestana
    22 out, 2021 Funchal 11:59
    Concordo que abusamos no consumo de carnes. Mas, Deus criou os prazeres e o humano os excessos...