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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

E se as mulheres que cuidam dos idosos e crianças desaparecessem por 6 horas?

08 out, 2021 • Opinião de Henrique Raposo


Precisamos de um novo contrato social que preste mais atenção simbólica e monetária a duas figuras: o cuidador familiar (a filha que cuida do pai acamado) e sobretudo a trabalhadora do sector social (que cuida de idosos e de crianças em IPSS).

Falemos então de apagões. Imaginemos verdadeiros apagões no mundo físico, humano, analógico. E se o apagão não tivesse atingido as “redes sociais” da internet, mas sim as verdades redes sociais da sociedade? Por exemplo: e se tivéssemos ficado seis horas, um dia de trabalho, sem as trabalhadoras de escolas, jardins-infantis e IPSS que cuidam dos nossos velhos e das nossas crianças? Seria o caos. O pânico seria a moeda corrente. Não ter onde deixar os nossos filhos não é bem a mesma coisa que não ter onde deixar um like.

Estas pessoas, quase sempre mulheres, têm tanto de invisível como de fundamental. Não tem sindicatos e corporações. Quase ninguém fala por elas. Mas, se unissem as suas vozes num uníssono, o país tremeria; os países tremeriam, porque esta é uma questão ocidental e não apenas portuguesa. E é uma questão que pode ser colocada desta forma: apesar de desempenharem uma das funções mais vitais da sociedade, cuidar de velhos e crianças, estas mulheres ganham uma miséria franciscana. Como dizem Anne-Marie Slaughter e Hilary Cottam nesta peça da Atlantic, há qualquer coisa de errado numa sociedade que paga tão pouco e que presta tão pouca atenção ao sector social que cuida dos membros mais frágeis da sociedade.

Este trabalho do sector social precisa de ser olhado de outra forma, até porque é mesmo um trabalho indispensável: sem o trabalho destas mulheres, todos os outros trabalhos tornam-se impossíveis. Se não tivéssemos centros onde colocar as crianças e os idosos, nós não poderíamos ir trabalhar. Além de serem indispensáveis para a sociedade como um todo, são imprescindíveis para os alvos diretos do seu trabalho. Por exemplo, quem tem contacto próximo com idosos já percebeu o impacto causado pelos confinamentos e pela suspensão da atividade das IPSS: os sinais da senilidade tornaram-se galopantes.

Onde é que eu quero chegar? Tendo em conta o crescente envelhecimento da população, parece-me claro que precisamos de um novo contrato social que preste mais atenção simbólica e monetária a duas figuras: o cuidador familiar (a filha que cuida do pai acamado) e sobretudo a trabalhadora do sector social (que cuida de idosos e de crianças em IPSS).

Se nada mudar, se mantivermos o quadro atual, a sociedade aproximar-se-á daquilo que o Papa Francisco apelidou de "eutanásia indirecta". Ao manter o cuidado dos idosos longe das prioridades familiares, sociais e políticas, nós, como sociedade, estamos de facto a criar as condições para o abandono mais ou menos explícito das camadas mais pobres da terceira idade.

Comentários
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  • João Lopes
    14 out, 2021 Porto 08:38
    Excelente análise!
  • Tiana
    10 out, 2021 Lisboa 13:29
    QUE ACONTECERIA? Nada de especial Senhor Raposo. O que poderia acontecer é o que deve mesmo acontecer. Os Pais ocuparem o seu lugar como educadores e formadores dos seus próprios filhos, porque é um direito e um dever que lhes compete. Isto da família funcionar como fábricas está a transformar as sociedades num autêntico esgoto social em que ninguém é de ninguém.... Os pais fabricam filhos e entregam-nos a outras mulheres para cuidá-los como se mete coelhos numa coelheira ou galinhas num galinheiro... Metem os filhos num caixote enquanto eles(pais) dizem que vão ganhar dinheiro para ficarem ricos e não faltar nada aos filhos... Pura ignorância. Falta o essencial o carinho e a presença sempre presente dos Pais... Vão ganhar e passam a vida a dizer que não têm dinheiro para pagar os caixotes dos filhos e dos idosos... Passam a vida à procura de galinheiros mais baratos. Os filhos crescem sem conhecerem os pais e vice-versa. Quando os Pais envelhecem e dizem precisar dos filhos e do seu carinho e os filhos fazem o mesmo, metem-nos num lar... E fica tudo pago com a mesma moeda... E todos acabamos por morrer pobres e sem dar o que os filhos e pais precisavam.... Porque só morre rico o ladrão e o corrupto... E a classe política... As Famílias hoje não se reconhecem em si mesmas porque vivem ausentes da realidade humana, que tem a sua Raíz no Pão nosso de cada dia e na dignidade de viver pobre mas de cabeça levantada caminhando como Pessoa honrada e cumpridora dos seus deveres.