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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

Rir do moralismo

01 out, 2021 • Opinião de Henrique Raposo


Não podemos ter a presunção de pensar que nunca escolheríamos o mal se o destino nos tivesse colocado naquele cenário.

Há dias, critiquei a minha filha numa dada situação. Disse-lhe para não ser “moralista”. Na resposta, ela fez a pergunta óbvia: o que é isso de ser moralista? Apesar de a pergunta ser óbvia, eu não tive resposta. Às vezes, usamos tanto uma palavra que perdemos o seu rasto e o significado, que passa a ser apenas um eco esfumado.

O que é o moralismo? Talvez a melhor maneira de começar a resposta seja através de outra pergunta: como devemos evitar o moralismo? Lembrei-me de Primo Levi, um dos sobreviventes da maior manifestação do mal da história recente. Ele podia ser duro com os seus agressores nazis, podia carregar nos adjectivos. Não o faz. ‘Se isto é um homem’, retrato dos campos de concentração, é um livro objetivo e seco. Julga-se ele superior ao seu agressor? Não, não me parece. Além disso, é raro encontrarmos uma situação em que só há dois blocos, vítimas e algozes. Nos campos da morte, existia uma hierarquia dentro dos prisioneiros. A elite dos prisioneiros, os sonderkommando, ajudavam os nazis a gerir o campo, isto é, eram judeus que tinham como função retirar os corpos das câmaras de gás. Colaboraram de forma íntima com o mal nazi. Na sua autobiografia, ‘O sistema periódico’, Levi é claro: ninguém tem autoridade para os julgar. Ninguém tem autoridade para criticar os sonderkommando, nem os que passaram pelos campos como Primo Levi, nem muito menos os que não passaram pelos campos.

Qual é o ponto de Levi? Não podemos ter a presunção de pensar que nunca escolheríamos o mal se o destino nos tivesse colocado naquele cenário. É fácil criticar os sonderkommando ou qualquer outro pecador num excesso moralista, 'Ah, eu nunca faria uma coisa daquelas!', mas uma pessoa preocupada com a dimensão moral do ser humano deve pensar noutra coisa: o que faria eu? Não teria eu dúvidas? O bem seria assim tão óbvio para mim? Nas piores condições possíveis, manteria a minha dignidade e recusaria participar no mal ou optaria pela via que me garantisse a sobrevivência? O moralista assume sempre que faria a opção certa. Este pecado, muito farisaico, é em si mesmo um problema, visto que é a base da presunção e da superioridade moral. Além disso, tem a jusante outra consequência: o moralista não compreende o perdão e a misericórdia.

Comentários
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  • Maria Sílvia Rodrigues de Moura
    02 out, 2021 BRAGA 16:16
    Bela opinião. Concordo.
  • António J G Costa
    02 out, 2021 Cacém 13:16
    Mas há pessoas que não o fazem. Pessoas que recusam o sistema. Há muitos, muitos anos, antes da guerra civil, um anarquista pertendeu matar o rei de Espanha. Sobrevoaria num os jardins onde o rei habitualmente se encontrava. Uma bomba lançada do avião mataria o rei. A bomba não chegou a ser lançada. "O rei encontrava-se rodeado, por muitas crianças. Se matasse as crianças para atingir o objetivo, onde iríamos parar? Seríamos iguais aqueles que pretende- mos destruir!" Ter moral, é ter vergonha de agir mal, de prejudicar o outro. Há pessoas assim. Ainda vai havendo.