Francisco Sarsfield Cabral
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​A democracia na América

29 dez, 2023 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A democracia americana tem muitos defeitos, alguns deles atenuados ao longo da história. O perigo, agora, é que essa capacidade de regeneração seja liquidada por quem não aprecia a democracia liberal e prefere as autocracias.

Em 2024, acontecerão muitas coisas, a maior parte das quais não podemos prever. Mas sabe-se que no dia 5 de novembro, uma terça-feira, haverá eleições presidenciais nos EUA. Destas eleições poderá sair vitorioso Trump, que assim regressará à Casa Branca. Por recearem que tal aconteça, e que a democracia americana sofra um rude golpe, milhões em todo o mundo aguardam nervosamente esse dia.

Ainda antes de ser um país independente, em 1776, as colónias inglesas na América do Norte já tinham dado importantes passos no sentido da convivência pacífica entre crentes de várias confissões cristãs. É que boa parte das pessoas que então viviam nas 13 colónias havia fugido da Europa, onde grassavam as lutas religiosas.

Nas regiões do Sul da América independente existia a escravatura, designadamente dos negros que tinham sido transportados de África. Esta situação levou à guerra civil, quando os estados do Sul abandonaram a União para manterem a escravatura. Os Estados Unidos (do Norte) ganharam a guerra. No Sul o racismo, apesar de a escravatura ter sido declarada ilegal, prolongou-se durante longas décadas, apoiado em leis estaduais.

Os americanos prezam muito a liberdade individual e nunca avançaram para um Estado social, ao contrário da Europa. Por isso a Grande Depressão dos anos 30 do séc. XX trouxe muita miséria aos americanos. Franklin D. Roosevelt, eleito presidente em 1933, introduziu algumas políticas sociais, até à sua morte, em 1945.

Os EUA intervieram nas duas guerras mundiais da primeira metade do séc. XX, contribuindo para a vitória dos aliados europeus - sobretudo para a derrota do nazismo alemão. Depois de 1945, os EUA foram decisivos na criação de uma nova ordem mundial, para preservar as democracias ocidentais da ameaça do comunismo soviético.

É essa ordem que está hoje colocada em risco pelo isolacionismo de Trump. Os imigrantes são também o alvo do ódio de Trump, que considera que os imigrantes ilegais “envenenam o sangue do nosso país”.

Este personagem tem uma conceção peculiar de democracia, aceitando as eleições apenas quando é declarado vencedor. Por isso mantém a mentira, dezenas de vezes desmentida por sentenças de tribunais e outras decisões de entidades independentes, de que ele ganhou as eleições de 2020. Trump levou o partido republicano (que era o partido vencedor da guerra civil...) a embarcar na difusão dessa fantasia grotesca.

Em síntese, a democracia americana tem muitos defeitos, alguns deles atenuados ao longo da história num clima de liberdade. O perigo, agora, é que essa capacidade de regeneração seja liquidada por quem não aprecia a democracia liberal e prefere as autocracias de Putin, de V. Orbán e de muitos outros.

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