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Francisco Sarsfield Cabral
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​O ataque à inflação nos EUA e na zona euro

04 nov, 2022 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


É instrutivo seguir o comportamento dos bancos centrais dos EUA e da zona euro nos seus combates contra a inflação. Numa pedagógica entrevista Mároi Centeno justificou as medidas do BCE.

Na quarta-feira passada a Reserva Federal (Fed, banco central americano) subiu 0,75% o seu juro diretor. Foi a quarta vez sucessiva que a Fed avançou com uma subida desta dimensão e a sexta vez desde que começou a subir os juros, em março. Alguns críticos consideraram ser tardia a subida dos juros da Fed.

O Banco Central Europeu (BCE) começou bem mais tarde. O BCE, longe de ter subido irresponsavelmente os seus juros, terá pecado por se ter atrasado no combate à inflação através do seu quase único recurso: subir os juros, tarefa que só iniciou em julho.

Note-se que a Fed tem nos seus estatutos dois objetivos: a estabilidade de preços e o pleno emprego. Já o BCE tem como objetivo único a estabilidade de preços. A inflação nos EUA foi de 8,2% em setembro. Na zona euro a inflação é mais alta, 10,7% em outubro.

O crescimento económico americano foi negativo no primeiro e no segundo trimestres deste ano, mas no terceiro trimestre subiu 2,6% (taxa anualizada). A tão falada recessão ainda não foi confirmada na zona euro.

Entretanto, o governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, numa extensa entrevista ao jornal ‘Público’ de quinta-feira, veio dizer que manter a inflação alta, se o BCE não subisse os juros como subiu, “teria um custo recessivo ainda maior”.

Recordo que nesta coluna, a 3 de outubro, referi que Centeno manifestara o desejo de que a seguinte subida dos juros do BCE fosse inferior a 0,75%, para evitar uma recessão. “Mas com uma inflação nos 10% na zona euro, o BCE dificilmente fará a vontade a Centeno”, comentei então.

De facto, o BCE fez mais: convenceu Centeno da justeza de subir juros como subiu.

Na referida (e pedagógica) entrevista ao ‘Público’, Centeno explica que a política monetária tem resultados na baixa da inflação apenas a médio prazo e que, no imediato, o essencial é a gestão das expectativas e a sua credibilidade.

E Centeno responde à objeção de que, sendo a origem da inflação europeia em grande parte do lado da oferta (a guerra) e não da procura, subir juros não será eficaz, dizendo que nem todas as pressões inflacionistas são agora desse lado.

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