Tempo
|
Francisco Sarsfield Cabral
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
A+ / A-

​Muros travam refugiados

27 ago, 2021 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Em Portugal, surgem sinais de que a solidariedade para com os afegãos não é palavra vã. Mas o vento não sopra de feição a uma abertura europeia ao acolhimento de refugiados.

Numa Europa onde se multiplicam as barreiras à entrada de refugiados afegãos é gratificante a iniciativa do ex-Presidente Jorge Sampaio de alargar a jovens afegãs o programa de bolsas de estudo. Este programa foi lançado em 2013 por J. Sampaio para estudantes universitários sírios, mas envolve hoje também jovens de outras nacionalidades. Este gesto, bem como a disponibilidade manifestada por várias entidades portuguesas, incluindo famílias, para receberem refugiados afegãos mostram que a solidariedade não desapareceu do continente europeu.

Por outro lado, a Grécia está a construir um muro de 40 quilómetros junto à fronteira com a Turquia, para impedir a entrada de refugiados do Afeganistão. Uma decisão lamentável, mas compreensível, dada a falta de apoio dos parceiros europeus da Grécia ao acolhimento de imigrantes naquele país.

Os afegãos há anos que procuram no exterior alívio para a fome que grassa no seu país. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) em julho deste ano os afegãos eram o segundo maior contingente de refugiados no mundo.

O receio dos talibãs e da sua bárbara teocracia é mais um impulso à saída dos afegãos rumo a outros países. Mas os talibãs já declararam a sua intenção de travar essa saída, tornando o Afeganistão numa enorme prisão.

A resposta de vários países europeus à vaga de refugiados afegãos foi, como infelizmente se esperava, fechar as portas à entrada desses refugiados. Não é uma resposta da UE, mas de Estados membros que, desde há seis anos, recusam receber imigrantes. É o caso, nomeadamente, da Hungria e da Polónia, países a que agora se juntou a Áustria.

Putin declarou não estar disponível para receber na Rússia refugiados afegãos suscetíveis de encobrir terroristas. Uma reação partilhada por vários partidos europeus de extrema-direita, xenófobos e hostis a imigrantes, partidos geralmente admiradores de Putin.

Há, no entanto, uma novidade em matéria de refugiados. Para se vingar das sanções impostas pela UE, o ditador bielorrusso Lukashenko resolveu enviar refugiados para as fronteiras do seu país com a Polónia e com os países bálticos.

O esquema era o seguinte: Lukashenko promovia a vinda de refugiados do Iraque para a Bielorrússia, em avião comercial, não para os acolher, mas para os reencaminhar para a fronteira com a Polónia, a Lituânia, a Estónia e a Letónia, de modo a prejudicar estes países da UE. Assim, por exemplo, no corrente ano mais de 4 mil refugiados em busca de asilo atravessaram a fronteira entre a Bielorrússia e a Lituânia, cinquenta vezes mais do que em 2020.

Por isso multiplicaram-se os voos entre Bagdá e Minsk. Foi preciso a Comissão Europeia chamar a atenção das autoridades iraquianas para que o seu país recebe significativo apoio financeiro da UE... O que levou a que este singular transporte de refugiados cessasse.

Entretanto, por motivos óbvios Bruxelas teve que aceitar, e até apoiar, a construção de muros e barreiras na fronteira entre, de um lado, a Polónia e os países bálticos, e, do outro lado, a Bielorrússia. O vento não sopra de feição a uma abertura europeia ao acolhimento de refugiados.

Tópicos
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Ricardo Alves Pereir
    30 ago, 2021 Lisboa 03:24
    Porque carga de água a EUROPA deve receber refugiados do ISLÃO para mais sabendo-se que muitos são terroristas que vem disfarçados de refugiados queremos cá atentados ? um país com 1/4 da população a viver na miséria com rendas de casa obscenas praticadas , pelos senhorios em Lisboa e Porto e agora também no resto do país tem problemas bem mais urgentes para resolver .
  • Bruno
    29 ago, 2021 aqui 22:46
    Os refugiados afegãos podem ir para a China que fica logo ali ao lado. Não precisam de fazer tantos quilómetros para viajar para a Europa. Esta insistência em vir para a Europa faz com que deixem de ser refugiados e passem a ser migrantes económicos, para os quais tem.de haver limites.
  • Sofia
    27 ago, 2021 lisboa 21:31
    o mapa não acaba na Europa. O mundo é grande e vasto. Por que razão pessoas de uma cultura e religião tão díspar da europeia se querem refugiar na Europa? Gostaria que o Francisco S. Cabral respondesse a esta questão: se a europa estivesse em guerra, acha que os cidadãos europeus iriam receber auxílio no Afeganistão, Paquistão, Iraque ou Síria? Nem me refiro ao auxílio material: Acha que a sua cultura iria ser respeitada nesses países? a resposta é bastante óbvia. O fosso cultural é enorme e estes não são apenas refugiados de guerra. Há de facto uma política orquestrada (como se viu recentemente em Marrocos) de colonizar a Europa com o islão. Peço desculpa mas a solidariedade neste assunto parece um tanto naif.
  • Ivo Pestana
    27 ago, 2021 RaM 19:44
    Sr Francisco, numas coisas não podemos mexer, a soberania dos países e a sua segurança. A Europa não está em condições de receber todos os que querem vir. Seria maravilhoso, se assim não fosse. Em termos económicos, sociais e territoriais, não é possível. Muitos vêm para cá, mas querem ficar no litoral, fogem do interior. Penso que isto deverá acontecer pela Europa fora. Depois fogem para outros países europeus. É um assunto complexo, sensível e difícil. Muitas ONG, falam, falam mas não apresentam grandes soluções. Abrigar e tratar estas pessoas são paliativos apenas. Além dos refugiados, temos os nossos emigrantes que também estão a passar dificuldades, na Venezuela, na África do Sul, no Brasil...tenho dificuldade em encontrar respostas a este tema. Portugal faz o que pode.