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Francisco Sarsfield Cabral
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Os “robots” e os empregos

07 jul, 2021 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


É verdade que séculos de desenvolvimento tecnológico nunca conduziram a um desemprego estrutural generalizado. Os países com mais “robots” tendem a ter menos problemas de desemprego, não mais. Mas ainda é cedo para se ter uma ideia segura sobre a influência da crescente robótica no mercado de trabalho.

A pandemia do coronavírus deu um impulso ao teletrabalho. Impulso que não desaparecerá quando a pandemia tiver sido finalmente vencida – muitas empresas continuarão a ver vantagens (poupança de espaço, nomeadamente) em manter uma parte dos seus empregados em teletrabalho; e a um bom número destes, embora não a todos, agradará trabalhar pelo menos parcialmente em casa.

Há um receio que antecede a pandemia e que permanece: não irá a automação crescente eliminar uma enorme quantidade de empregos?

Até que ponto irão os “robots” substituir trabalhadores?

Caminhamos para sociedades altamente automatizadas, quase dispensando o trabalho humano?

A história dá-nos uma primeira resposta. Quando, há dois séculos, as máquinas, incluindo algumas movidas a vapor, começaram a ser instaladas em fábricas, muitos trabalhadores perderam os seus empregos. Reagindo contra essa desgraça, para eles, alguns desses operários destruíram máquinas de fiação e tecelagem.

A prazo, porém, a revolução industrial criou muitíssimos mais empregos do que aqueles que inicialmente destruiu. Só que, até tal se concretizar, os trabalhadores foram duramente explorados. Nessa altura não existia subsídio de desemprego, que apenas no séc. XX se generalizou. E, como Keynes diria, a longo prazo estarão todos mortos.

Segundo o FMI e economistas como Joseph Stiglitz os custos empresariais trazidos pela Covid-19 induzem a uma maior substituição de trabalho humano por máquinas. Por exemplo, refere o semanário “The Economist”, os agricultores britânicos passaram a utilizar mais máquinas na colheita de fruta.

O crescente recurso a “robots” suscita por isso compreensível apreensão. Mas há indicadores que permitem alguma tranquilidade, embora não afastem totalmente os receios. Assim, por exemplo, as chamadas tarefas de rotina, aquelas que mais facilmente podem ser exercidas por “robots”, como caixas de supermercados, estão a perder peso na atividade económica nos EUA - tendência que antecede a pandemia.

Na economia americana os salários mais baixos, remunerando sobretudo as tais tarefas de rotina, mais vulneráveis à automação, estão atualmente a subir mais do que a média salarial.

O indício mais positivo é a queixa generalizada dos empresários, nos EUA, na Austrália, na Nova Zelândia, na Europa de Leste, etc., de que não encontram no mercado de trabalho os empregados de que necessitam. Falta mão-de-obra também em Portugal, sobretudo na construção civil e em trabalhos agrícolas sazonais.

No caso português, trata-se de tarefas que os nacionais já não fazem, ou só fazem por salários que as empresas portuguesas não pagam (por isso muitos trabalhadores portugueses da construção civil emigram para a Europa rica).

A resposta em Portugal, neste caso, não são “robots”, mas imigrantes asiáticos, com todos os problemas de desumana exploração que tal envolve, como se viu em Odemira.

No setor da construção civil, a falta de mão-de-obra sente-se, também, ao nível das tarefas especializadas, designadamente informáticas. Isto porque a construção vai ser alvo de uma modernização, implicando uma progressiva digitalização e a utilização de tecnologias de ponta (“drones”, impressão 3D e novos materiais), segundo Manuel Reis Campos, presidente da Confederação Portuguesa da Construção e Imobiliário.

Por outras palavras, aqui não são “robots” a eliminar empregos, mas o inverso – precisa-se de mão-de-obra para as tarefas correntes e, também, para lidar com novas tecnologias.

O “Economist” lembra que “séculos de desenvolvimento tecnológico nunca conduziram a desemprego estrutural generalizado.

Os países com mais ‘robots’ tendem a ter menos problemas de desemprego, não mais”. Mas ainda é cedo para se ter uma ideia segura sobre a influência da crescente robótica no mercado de trabalho.

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