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Francisco Sarsfield Cabral
Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Curdos, povo sem Estado

30 set, 2017 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Os curdos vivem no Iraque, Irão, Síria e sobretudo na Turquia. Tentam um Estado curdo no Norte do Iraque.

Numa altura em que o controverso referendo sobre a independência da Catalunha concentra, e com razão, as atenções gerais, importa não esquecer um outro referendo, também visando a independência, no Norte do Iraque.

O referendo na Catalunha contraria a Constituição espanhola. O referendo curdo no Iraque foi considerado ilegal por Bagdad, que, no entanto, não teve meios para o impedir. Mas os países vizinhos do Norte do Iraque e vários países ocidentais também estão contra este referendo, que aliás não tinha carácter vinculativo.

O Iraque nasceu, um tanto artificialmente, após a I Guerra Mundial, que desmembrou o Império Otomano. É um país com fraca consciência nacional; os curdos ocupam a parte Norte e gozam de apreciável autonomia. São ali perto de 5 milhões, cerca de um quinto da população do Iraque. Não professam a religião xiita nem a sunita – são muçulmanos, mas de observância não muito rigorosa.

Um ditador tirânico como Saddam Hussein, que mandou no Iraque entre 1979 e 2013, conseguiu, pela força, manter uma certa unidade no Iraque. Saddam favoreceu os sunitas contra os xiitas, apesar de estes serem mais numerosos no país.

Agora, os xiitas predominam no governo de Bagdad, mas não conseguem entender-se com os sunitas nem com os curdos do Norte. Por exemplo, quanto à distribuição dos lucros do petróleo.

Votação maciça

O Curdistão iraquiano tem petróleo, exportado através da Turquia (o que é um problema, como adiante se verá). As reservas petrolíferas situam-se sobretudo na zona de Kirkuk, cidade de cerca de 1 milhão e 200 mil habitantes.

O governo autónomo do Curdistão iraquiano resolveu avançar com um referendo visando a independência da região. Na segunda-feira passada, 93% dos 3,3 milhões de votantes apoiaram o “sim” à independência. O governo central, em Bagdad, não aceita essa independência. Quer manter a unidade do Iraque e, entre outras medidas, suspendeu os voos para e de Irbil, a capital do Curdistão iraquiano. Outras companhias aéreas da região, como as do Egipto e do Líbano, também suspenderam os voos.

Oposição de vários lados

Cerca de 14 milhões de curdos vivem na Turquia; no Irão serão por volta de 7 milhões e na Síria um milhão. Não admira que Erdogan, o Presidente turco, se oponha vivamente a uma independência curda no Norte do Iraque, pois 20% da população turca são curdos que querem tornar-se independentes de Ankara.

Um partido curdo independentista realiza frequentes atentados terroristas na Turquia e trava uma guerra civil de baixa intensidade com o Exército turco. Erdogan poderá impedir exportações petrolíferas vindas do Norte do Iraque que passam num “pipeline” pelo território turco.

Os Estados Unidos reconhecem o importante papel dos curdos no combate ao “Estado Islâmico”. Os militares do Curdistão, os “peshmerga”, revelaram grande coragem e eficácia nesse combate. Mas Washington também se opõe à independência do Norte do Iraque, que poderá levar à desintegração do país, bem como ao fim da coligação militar contra o “Estado Islâmico”, que já reduziu consideravelmente o território deste.

Apesar de gozarem no Norte do Iraque de considerável autonomia – maior do que a de outras e mais populosas comunidades curdas, nomeadamente a da Turquia – os curdos daquela região querem a independência. É que a luta dos curdos por um Estado dura há pelo menos um século e meio. É o maior povo do mundo sem Estado.

Comentários
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  • Jorge
    01 out, 2017 07:03
    O caso Curdo não é mais do que um, entre muitos outros Povos, que são OBRIGADOS a viver em Países, com fronteiras traçadas a régua e esquadro, e que por isso, vivem "usurpados" das suas tradições e costumes! Vários exemplos: No Brasil os Índios (que já lá viviam quando "descoberto" por Portugal) sobrevivem no meio dum País em que as suas Culturas e Tradições NÃO SÃO, sequer, (como deveriam ser) "protegidas" pela Constituição! E o mesmo se aplica aos EUA! E que dizer dos Incas cuja Nação foi "destruída e saqueada" pela Espanha? E os "Macondes" (que foram os maiores e mais ativos na guerra anticolonial em Moçambique) que, há séculos querem ser mais do que um Povo e ter uma "Nação"? O que sucedeu à ex-Jugoslávia? Foi preciso morrerem MILHARES de Sérvios, Croatas, etc ... para se acabar com um "País inventado"! Há muitos outros Povos que querem ter uma Nação (basta olhar para a "vizinha Espanha" onde Bascos e Catalães NÃO QUEREM ser Espanhóis e/ou Franceses como sucede com os Bascos)! Tem razão Francisco Sarsfield Cabral mas a sua análise deveria ser "alargada a nível Global" (especialmente em África)! Vivemos uma MENTIRA! Sem dúvida!
  • Vasco
    30 set, 2017 Olivença 22:15
    Refere aqui o senhor FSC de que 14 milhões de curdos habitam na Turquia mais uns tantos milhões espalhados entre Irão e Síria, ou será precisamente o contrário, todos esses curdos estão nos seus territórios ocupados por esses país, parece-me ser essa a realidade que muitos teimam em não ver!.Os nossos vizinhos catalães sofrem com o mesmo mal!.
  • João
    30 set, 2017 Lisboa 13:04
    O que mais me choca na questão curda é a hipocrisia global sobre o apoio quase incontestável aos ditos palestinos (árabes) que têm sempre tantas atenções por parte dos países muçulmanos e não só, e no entanto, existe este povo muito maior e que nem sequer pertence a nenhum dos outros povos - a não ser pela força bruta - como os árabes que ocuparam as terras de Israel, esmagado sem apelo nem agravo por todos os vizinhos. No rol temos hipócritas como os imperialistas turcos, os sírios, os iranianos e por fim os iraquianos sempre tão lestos na defesa intransigente dos árabes que ocuparam o território dos outros com a mania que é apenas, quando nem sequer são nativos daquela zona, ao ponto de negar a História de Israel e a existência dessa nação! Os curdos são, naquelas bandas, os únicos que de facto merecem ter o seu país, espartilhado a régua e esquadro por todos, enquanto que submetiam os verdadeiros donos. Estranho esta tendência para esta descarada dualidade de critérios!