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​Iryna, uma guerrilheira ucraniana pela reconstrução em jornada pela Europa

23 jul, 2022 • José Pedro Frazão


Trabalha com as câmaras de Irpin e Bucha numa roda-viva de contactos pela Europa para a reconstrução daquelas cidades nos arredores de Kiev. Em entrevista à Renascença, Iryna Yarmolenko admite que as reformas impostas por Bruxelas no quadro da candidatura à adesão podem ser dolorosas para os ucranianos. Mas confia que o lugar da Ucrânia é na União Europeia e esta é uma oportunidade soberana para mudar a economia e abrir novos mercados.

Iryna Yarmolenko foi acordada por fortes explosões na madrugada de 24 de Fevereiro num dos seus apartamentos em Irpin, arredores de Kiev. Teve apenas tempo de agarrar no fiiho e na mãe e fugir em direção à fronteira.

A Europa não era estranha a Iryna, activista na área ambiental e promotora imobiliária que dividia o seu tempo entre Bucha e Irpin, cidades muito próximas nos arredores norte de Kiev. Participou em diversos congressos e usou esses contactos depois da invasão russa para promover a reconstrução de Bucha e de Irpin. Iryna tem percorrido a Europa Ocidental , de Itália a Portugal, passando por Espanha, Bélgica e França, num rodopio de reuniões e conferências em torno da reconstrução das cidades martirizadas pela invasão russa.

Qual a diferença no processo de reconstrução de Irpin e Bucha?

O processo é algo parecido. Quando o nosso inimigo russo foi embora, as pessoas começaram a pensar em voltar . Irpin ficou destruída a 70% e Bucha apenas 30%. Bucha ficou tristemente famosa pelas atrocidades que ali ocorreram e as pessoas querem ajudar. Fazemos muitas reuniões internacionais e pessoas de diferentes instituições internacionais procuram Bucha. No meu caso, por exemplo, acabei de convidar um Rotary Club da Califórnia para ter uma reunião com as autoridades locais de Bucha. E todos os dias, recebemos delegações diferentes que de alguma forma vão ajudar-nos. Já foi assinado um acordo entre Bergamo, Taiwan e outras cidades que vão apoiar Bucha, tal como, por exemplo, a associação austríaca de municípios.

Já voltaram muitas pessoas para Bucha?

Sim, voltou cerca de 50% da população.

O que pensa que Bucha pode ser depois de toda esta tragédia?

Em primeiro lugar, aceitamos a situação. Choramos e aceitamos aquilo que aconteceu. Sabe, a Primavera estava a chegar e a achávamos que a vida ia vencer. A vida vence sempre, veremos a natureza dos raios de sol, porque Bucha é verde e bonita. E eu acho que as pessoas vão aceitar esta história muito difícil e danosa e nós avançaremos com a nossa cidade. Temos uma alma de independência, uma dignidade muito elevada e faremos parte da União Europeia.

Tem receio de uma eventual segunda onda de ataque russo que pode colocar em perigo está recuperação?

Os nossos políticos estão sempre preocupados com a possibilidade de uma segunda ou terça vaga russa. todos nós pensamos que vivendo com esse vizinho, estaremos sempre numa situação muito angustiante e difícil com o risco de invasão por este país. Reconheço que estamos mais prontos agora do que antes. Precisamos de abrigos de alta qualidade, proteção territorial e da sociedade civil. Os nossos militares devem estar mais agora preparados para isso. Significa que agora estamos melhores do que antes mas os foguetes ou bombas deles podem chegar a qualquer uma das nossas cidades.

Como qualquer sociedade democrática, precisamos de parar esta guerra injusta e ela só pode ser interrompida quando alguma autoridade o imponha ou o presidente Putin caia.

De que forma prática a vida quotidiana de Bucha e outras cidades pode mudar sendo a Ucrânia um país candidato à União Europeia?

Na prática, nós já somos da União Europeia. O nosso sistema bancário é de altíssima qualidade. Estando aqui na Europa, entendo o quanto podemos manter-nos na Europa. O nosso sistema de serviços é muito bom pelo que consigo comparar com diferentes cidades. Os nossos serviços são rápidos e realmente com bons resultados. Esta candidatura , só por si, é emocionalmente importante para as pessoas entenderem aquilo pelo qual estamos a lutar. Em termos práticos, é também uma oportunidade para o nosso mercado e para a nossa economia ser mais internacional e aberta. Acredito que todas essas novas reformas que esperam que façamos serão feitas mais rapidamente. A sociedade está preparada para algumas reformas que poderão ser dolorosas para nós, mas realmente acredito que estamos no bom caminho. No dia 24 de Fevereiro, no século XXI, não queria acreditar que num país europeu poderiam cair bombas de forma tão mortífera e instantânea. E há diferentes formas de resistência. Os médicos resistem de determinada maneira, os professores ensinam os nossos filhos em abrigos debaixo de fogo e assim por diante. A minha forma de resistência, através de gestão de comunicação, implica fazer todas essas ligações em redes internacionais. Por exemplo eu fiz a ponte entre Cascais e os presidentes da Câmara de Bucha e de Irpin para um apoio financeiro para a reconstrução dos nossos dois jardins de infância. Penso que isto é um lado da guerra que passa pela comunicação e é aí que me encontro como soldado e guerrilheira.

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