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Cristina Sá Carvalho
Opinião de Cristina Sá Carvalho
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​Escolas que nos inspiram uma Cultura de Integridade

07 jun, 2022 • Opinião de Cristina Sá Carvalho


A corrupção custa-nos 18, 2 mil milhões de euros por ano, ou seja, 8-10% do PIB e duas vezes o orçamento anual para a educação. É a principal causa de pobreza para um em cada cinco portugueses.

Em 12 de junho de 2021, a associação All4Integrity criou o Programa RedEscolas Anticorrupção. Menos de um ano depois, este projeto não só é uma realidade robusta de objetivos, recursos didáticos e comunicação, como produziu um trabalho pedagógico interdisciplinar de grande qualidade, envolvendo as comunidades educativas e interagindo com o poder local, em cinco distritos do país e em Macau.

Um dos aspetos que me parece mais saliente em todo este percurso é a enorme capacidade pedagógica demonstrada pelos professores que aceitaram o desafio de inspirar nos seus alunos o desejo de combater a corrupção e de lutar por instituições mais transparentes e íntegras. De facto, as atividades implementadas em 17 escolas, tanto públicas como privadas, e incluindo o ensino profissional, mostraram não só uma grande criatividade como movimentaram uma enorme variedade de recursos técnicos e educativos tanto ao nível da exploração dos conteúdos introdutórios como da investigação sobre as causas da corrupção e as possibilidades da sua irradicação.

O mesmo se pode dizer do contacto com o poder local, assim como das ações de verdadeira mobilização das comunidades educativas para este debate crucial para a sobrevivência do nosso país: a corrupção custa-nos 18, 2 mil milhões de euros por ano, ou seja, 8-10% do PIB e duas vezes o orçamento anual para a educação. É a principal causa de pobreza para 1 em cada 5 portugueses, enfraquecendo as instituições e danificando não só a nossa vida comum, mas a existência de cada um de nós. Vale a pena ter consciência disto.

O que este Programa faz – dirigido por Ângela Malheiro com perceção da realidade, convicção, estratégia e trabalho, portanto, com resultados à vista – é proporcionar uma experiência, profunda e relevante, através da qual as escolas são ajudadas a pensar e a desenvolver dinâmicas de trabalho que, verdadeiramente, educam os seus alunos para uma cidadania democrática e participativa. Assim se incentiva a ação, consciente e consequente, de pessoas que aspiram a uma sociedade mais justa e mais integrada para todos, e é certo que “escolas em ação = menos corrupção”.

A All4Integrity não voa baixinho e o seu objetivo é transformar Portugal numa referência internacional na prevenção e no combate à corrupção, tal como já o são o nosso Sistema Nacional de Saúde, o combate à fraude fiscal ou as práticas de consulta e reinserção de toxicodependentes: nada que não sejamos, pois, capazes de fazer. #LibertemOMeuPaísDaCorrupção foi um pedido impulsionado inicialmente por André Corrêa d’Almeida, com o objetivo de promover a mobilização, colaboração, desenvolvimento, diálogo e intervenção de atores, grupos e comunidades na elevação das consciências e na alteração de comportamentos que favoreçam a disseminação de uma cultura de integridade em Portugal. Como o próprio fundador da All4 explica, o verbo é “libertem” pois está dirigido às autoridades legislativas competentes, cuja responsabilidade política e contratual é precisamente criarem boas regras que permitam definir o jogo político, económico, cultural e social que favorece a maior liberdade e bem-estar de todos os cidadãos. O papel destes últimos é o de exigir, promover e fiscalizar esse mesmo trabalho, melhorando os padrões de qualidade da nossa vida política, esforço que não deve ficar limitado às academias nem sustentado apenas pelo suave balancear da ação/inação das elites.

Se a vida já me ensinou alguma coisa, certamente foi que não só o segredo não é a alma do negócio, como a transparência é, sim, o ânimo, a base e o carácter de tudo o que de melhor é capaz a pessoa humana. Este é o entusiasmo, a energia e a força transformadora que a integridade oferece às pessoas e às organizações na sua luta contra o abuso e a corrupção.

Aceitei participar no Júri desta iniciativa promissora porque defendo uma escola mais democrática e aberta, que acolhe a participação dos alunos e dos docentes, e na qual estes podem experimentar uma cidadania vinculativa e responsável. Há muito que a escola não serve apenas para ensinar a ler, a escrever e a contar.

Na escola, cada aluno e cada aluna pode re-escrever o seu próprio destino, encaminhando-o decididamente para o Bem Comum. Alunos e alunas podem igualmente aprender a contar uns com os outros para o sucesso de todos e do coletivo nacional. Devem aprender a ler a realidade, na sua complexa integração europeia e na sua imensa escala planetária, reclamando transparência e integridade para uma vida e uma sociedade que é, que tem de ser, de todos.

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