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Cristina Sá Carvalho
Opinião de Cristina Sá Carvalho
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Elogio da educação sentimental

15 fev, 2022 • Opinião de Cristina Sá Carvalho


Se continuarmos a ser uma geração narcisista, principalmente autocondenada a olhar o futuro como uma opacidade sem saída, nada mais teremos para oferecer do que solidão, melancolia e depressão, aborrecimento.

“Os adolescentes querem ser mais cognitivos do que sentimentais”, escreveu Ajuriaguerra, com a arguta e profética autoridade de uma linhagem poderosa de especialistas em saúde mental. Para as questões intrincadas devemos socorrer-nos dos sábios e poucas realidades humanas serão mais complexas do que a miserável existência de cada adolescente que é deixado entregue a si mesmo, sem figuras de identificação, mecanismos de segurança e saídas que signifiquem uma verdadeira opção. Como se não bastasse essa irritação constante, advertiu o mestre, provocada pelo modo pejorativo como cada geração descreve os mais jovens, ainda há essoutra coisa, espantosa, do abandono: a liquefação da família, a irrelevância da escola, a fragilidade das Igrejas, a frequente monstruosidade prodigalizada pela sociedade do espetáculo, na sua voracidade por dramas e no seu intenso snifar em direção à dor, tão bem pagos.

Mas os adolescentes são, apenas, pessoas, e a sua necessidade de transgressão, na falta de limites e de orientações, confunde-se com um grupo – real ou virtual – no qual procurar uma identidade, copiando o modelo de rigidezes de determinados sistemas adultos, recusando outros, negando-os. Sem serem encaminhados para reconhecer o duplo factor do princípio do prazer e do princípio da realidade, desvalorizam ou hipervalorizam a felicidade e a desgraça ou o sofrimento, permanecendo desorganizados, anómicos e incapazes de fazer frente aos próprios impulsos.

Deste modo, os antigos rituais iniciáticos, de transição tranquila e integrada, são substituídos por uma intensa necessidade de destruição, de autodestruição, rebelando-se contra uma sociedade que não faz o que pretende fazer e na qual só percecionam uma hipócrita ambiguidade. Assim, os adolescentes encontram as suas solução desesperadas no isolamento – dos seus quartos vazios, das suas únicas conversas online, às vezes, das muito hiperconformistas notas altas - ou na adesão a grupos em que, à custa da perda de autonomia e de individuação, possam encontrar um sentido de pureza: nestas estão as armas, os fogos, as bombas, manifestos de mil formas enlouquecidas de continuar a funcionar, em luta, delirante e perigosa, contra o peso da invisibilidade. A coisificação do outro garante a anulação da empatia e da compaixão, a passagem ao acto é sempre uma possibilidade, cada gesto interpretado como uma injúria ou um desafio.

Ajuriaguerra lembra que já não se fala de sofrimento ou dos destituídos do mundo das abundâncias, e tudo se centra nos direitos. E que não se clama por caridade mas, apenas, por justiça, e termos como a piedade foram eliminados pelo seu fracassado arcaísmo. Os adolescentes de hoje, diz, quereriam ser portadores de fórmulas, e vivem na magia do verbo, “utilizando slogans que lidam com os fantasmas de todos os homens, sensitivamente válidos, e com o valor fantasmático reconhecível, mas que permanecem estáticos”, sem ação. Assim, não há condições para construir uma identidade, sempre em fuga do seu interior, incapaz de abordar os problemas, as fragilidades expostas, o juízo. Tudo são dependências que se atualizam em novas dependências, cada vez mais simbióticas e confusionais, numa vã partilha de angústias e de alegrias, dividindo a pessoa em secções, impossibilitando uma unificação do “eu”.

Põe o mestre da psiquiatria o dedo na ferida: “são os adultos os culpados pelo seu imobilismo”, esses “camaradas” sem passado e sem futuro, cheios de ambiguidades, temor, sem capacidade para suportar as frustrações, desejando tudo na instantaneidade do imediato, aceitando que não há programação possível numa sociedade injusta, destituídos de autoridade.

Esta é uma procura modesta de justiça e de aceitação, malconformada e muito pouco reconfortante, de que, mais uma vez, como país civilizado de adultos responsáveis, falhámos nas promessas de proteção, orientação e acompanhamento dos mais jovens, que a roda dentada das gerações nos confiou. Se continuarmos a ser uma geração narcisista, principalmente autocondenada a olhar o futuro como uma opacidade sem saída, nada mais teremos para oferecer do que solidão, melancolia e depressão, aborrecimento.

Ainda assim, todos necessitamos de contacto, de exteriorizar as tensões, de amar e de ser amados. Tanto nos faz falta integrar a própria agressividade como limitar esse caráter ostensivo que, abrindo-as às violências constantes, adquiriram as relações amorosas. Estes mecanismos são vitais, são a chave para desenvolvermos uma vida adulta que impeça os adolescentes de crescer na consumidora ansiedade e desconcerto em que as crianças e os jovens de hoje se encontram mergulhados: “não se pode exorcizar as dificuldades negando-as”. Obrigada, mestre.

Comentários
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  • Ivo Pestana
    15 fev, 2022 Madeira 14:44
    Solução é a International Sharing School e seus métodos.