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Cristina Sá Carvalho
Opinião de Cristina Sá Carvalho
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Almirante Poupas

23 nov, 2021 • Opinião de Cristina Sá Carvalho


O facto do Poupas, da Rua Sésamo, ter vindo a público defender a vacina lançou a polémica nos Estados Unidos.

Um ninho tornou-se o epicentro da campanha liderada pela América conservadora, quando o Poupas comentou nas redes sociais que tinha sido vacinado contra a Covid-19. Esta celebridade da Rua Sésamo, dada como tendo seis anos de idade, é uma figura constante na luta a favor da vacinação, do combate à obesidade infantil e da promoção das regras de proteção civil e, mais uma vez, procurou explicar que queria proteger-se e proteger os demais. A sua racionalidade acessível colocou um Senador a falar para o boneco, ignorando como, desde 1969, os coloridos habitantes da rua mais ensolarada da televisão se mobilizam constantemente para salvar milhões de crianças de mortes evitáveis e, no geral, dedicam alegria, cuidado e inteligência às infâncias mais vulneráveis, promovendo melhores oportunidades educativas frente às disparidades de facto presentes nas benesses escolares que deveriam ser de todos.

Mesmo no mundo afluente o encerramento das escolas, as dificuldades muito acrescidas para as famílias monoparentais e, em geral, o esforço das famílias economicamente mais desfavorecidas em confinamento, têm-se provado como altamente penalizadoras de crianças e de adultos. Responder às novas exigências escolares à distância, à permanência das crianças em casa e à dificuldade em manter empregos precários, assumem, num país enorme, em que apenas cerca de 58% da população está totalmente vacinada e que sofreu já a perda de 700.000 vidas, umas proporções dramáticas. Mas, de algum modo, como ainda temos na cabeça a promessa da imunidade de grupo, parece que as crianças americanas estão a ser chamadas para suprir a vacinação dos adultos que a rejeitaram, e é sob este ponto de vista que me parece que o Senador, desde o seu assento negacionista e acesso aos melhores cuidados médicos, faria melhor figura se estivesse calado.

Manter as escolas abertas e as crianças e os adolescentes mais vulneráveis sob orientação e cuidado, é uma missão social urgente e uma escolha económica e social positiva. Margarida Gaspar de Matos afirmou há dias, numa reunião sobre saúde pública, que metade da nossa população juvenil combina uma perceção baixíssima do risco com um grande sofrimento, e que as escolas estão a passar uma fase de grande turbulência. Desta faz parte o sofrimento das suas (maioritariamente) professoras, muitas delas mães de família que enfrentaram com pouquíssimo apoio o enorme acréscimo de trabalho que significou a escola à distância e que, agora, se empenham, também com falta de orientações e meios, na recuperação escolar dos alunos.

É preciso reconhecer o cansaço que a pandemia nos provoca e o facto de haver tanta gente que parece não se aperceber desses efeitos. Suponho que, como todos, perdi para a Covid-19 muitas pessoas que apreciava, que eram importantes para mim, que me tinham apoiado durante anos e cuja partida deixou a minha vida mais pobre. No entanto, ao longo destes meses, não deixei de pensar como tudo seria pior, mais negro e muito mais difícil, se a roleta da imunidade natural não protegesse eficazmente as crianças e os jovens.

Compreendo, pois, que decidir se estas faixas etárias vão ser vacinadas para nos proteger, a nós, adultos, por muita falta que lhes façamos – e fazemos – tem também o lado doloroso de aceitar que, depois de uma fantástica campanha vacinal e uma anuência massiva e esclarecida pelo lado da população, ainda estamos longe do investimento nos recompensar com o regresso a essa “normalidade” que é fazer uma vida medianamente saudável com algum grau de liberdade psicológica.

Marcados por repetidas escolhas do mal menor e pela exigência de lidar com um cálculo de risco menos validado do que pede uma prudência matemática, estamos realmente no mesmo barco quando se avizinha uma das decisões políticas mais difíceis dos últimos tempos, isto é, a vacinação das nossas crianças. Qualquer que seja a opção, na sua fragilidade científica e intrincado envolvimento ético, vai fazer falta coragem e um excelente nível de comunicação. Num contexto de lutos e de lutas, isto faz-me sentir saudades do Poupas e, também, do Almirante. Mas eles podem, sempre, voltar.

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