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Cristina Sá Carvalho
Opinião de Cristina Sá Carvalho
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​Venham daí os criancistas

04 jun, 2019 • Opinião de Cristina Sá Carvalho


Há países inteiros condenados ao sofrimento contínuo e à incerteza onde a infância não existe e o tornar-se adulto é uma miragem.

A infância é o tesouro da humanidade, o pequeno intervalo temporal da sua história em que se combinam os logros biológicos e culturais do passado e a força esperançosa do devir. Só uma civilização destituída de inteligência e de princípios éticos evoluídos descura e destrata as crianças. E é isso precisamente que acontece com este nosso tempo de existir.

Não se trata apenas de invocar a situação terrível dos milhões de crianças que, num mundo que conta com mais telemóveis do que pessoas e no qual se constroem, em todas as latitudes, fortunas colossais produzidas por uma economia sem riqueza, não vão à escola, quer seja pela pobreza das suas regiões ou famílias, mas também pela corrupção e ineficácia dos governos, pela guerra, pelo terrorismo, pelos desastres climáticos ou pela necessidade premente de fugir dos muitos territórios da morte que crescem em geografias várias.

São, pois, pessoas condenadas, desde o início das suas vidas, a uma sub-existência marginal e à pobreza endémica. Há países inteiros condenados ao sofrimento contínuo e à incerteza onde a infância não existe e o tornar-se adulto é uma miragem, marcada, sem tréguas por lutas inglórias e desumanas. Persistem também práticas culturais de feitiçaria, de mão-de-obra escrava, de horrenda exploração sexual e essa negação de todo o sentimento digno de uma pessoa humana que são os meninos soldados.

Não é, pois, em vão, que continua a ser necessário um dia Mundial da Criança. Certamente que a situação na Europa é diferente da dos outros continentes, a começar pelo reduzidíssimo número de crianças recentemente nascidas. Como noticiava há pouco um diário espanhol, há cidades em que já há mais cães do que crianças.

As crianças não são apenas o nosso potencial de renovação genética ou económica, nem “apenas” a nossa responsabilidade primordial, são a nossa dívida para com a humanidade. Por termos nascido numa família, numa sociedade, numa cultura, e termos podido fazer caminho, no conjunto de uma complexa teia de relações, em direção a uma vida plena e produtiva, a idade fértil de procriar e de educar é o momento de dizer “obrigada”. Nas idades da experiência e da sabedoria, é a ocasião de fazer a síntese, preparar a transição e garantir que que haverá condições culturais e materiais justas para uma vida em comum digna e consistente com os Direitos Humanos. Ou seja, um mundo onde nascer e aprender a ser é belo e bom, uma alegria estruturada nas boas práticas e nas boas políticas que garantem o bem comum.

Agora que os potenciais arcos de governação se engalanaram com a bandeira, os desafios e as promessas dos animalistas, faço votos de que em Portugal, criativo e desenrascado, surja uma nova formação política. Seja ela, espero eu, tão motivada para as defesas e as reivindicações que apaixonam os donos de cães, gatos e demais fofos animais mas, desta vez, orientada para a defesa das necessidades e dos bens das crianças. Dizem os estudiosos que, sem abelhas o ser humano só poderá subsistir durante mais quatro anos. Mas quantos anos poderá sobreviver a humanidade sem infância?

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