Pedro Celeste
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Tsunamis digitais: a luta pelo pódio da IA

10 jun, 2024 • Pedro Celeste • Opinião de Pedro Celeste


No final do dia devem ser as os governos e as pessoas a decidir como é que esta tecnologia disruptiva deve ser implementada e adaptada na sociedade. Até onde chegará? Ninguém sabe. Os limites? Também não. Uma coisa é certa: nada será como antes.

A disrupção causada pela inteligência artificial (IA) coloca um conjunto de atividades empresariais mais expostas à automatização, desde a área jurídica, financeira, administrativa, marketing ou comercial, entre outras.

Segundo a Randstad, estima-se que em Portugal, nos próximos 10 anos, a IA possa afetar quase meio milhão de pessoas. A boa notícia é que o impacto positivo na criação de oportunidades de trabalho é praticamente da mesma dimensão. Todas as atividades que tendem para a automatização, rotina de tarefas ou acesso fácil à informação, podem efetivamente estar em causa, mas os setores conectados com a informática, telecomunicações e todos os seus derivados (serão quase todos) podem ser impactados positivamente.

A aposta das grandes tecnológicas na IA está a conhecer números verdadeiramente impressionantes: a Alphabet, Meta, Amazon, Microsoft e Nvidia totalizaram 40 mil milhões de dólares de investimento em enormes datacenters só no primeiro trimestre de 2024, para dar resposta à exigência de reunir a energia necessária a garantir o seu crescimento exponencial. Na verdade, o consumo de energia dedicado a tudo aquilo que provém da IA requer investimentos brutais. Um estudo do JP Morgan Chase fez equivaler o investimento destas empresas a toda a energia produzida pela Colômbia.

Há outros dados interessantes que emergem desta nova realidade. Se é verdade que muitas tarefas passarão a ser concretizadas de forma imediata por uma máquina, noutros casos a sua implementação será mais lenta, como ocorre com aquelas que requerem o uso da visão, nas quais se prevê que as operações automatizáveis não ultrapassem 23%, deixando grande margem de manobra para a capacidade humana na concretização da ação.

Por outro lado, já todos ouvimos muitas críticas ao rigor da informação que IA produz, embora sabendo que aprende com os erros e que se adapta à linguagem e conteúdo requerido. Mas não subestimemos o seu potencial: uma revelação recente ocorrida nos EUA revelou que, nos exames para advogado, em 90% dos casos a IA obteve melhores notas que os próprios candidatos.

Enquanto se mantém a discussão na comunidade científica sobre se estamos a criar uma inteligência superior à humana ou se estes modelos apenas copiam aquilo que leram e viram, sem compreender o seu conteúdo, a verdade é que as economias e respetivas empresas se vão transformando em função da sua propagação. Em Portugal estima-se que o efeito da IA generativa represente cerca de 6% do PIB, com tendências evidentes de crescimento.

Com maior ou menor dificuldade as empresas devem começar a utilizar, desde já, a inteligência artificial em seu proveito. Na investigação de informação, na procura da flexibilidade de processos, na produção documental ou na capacidade criativa. Na tentativa de criar maior valor nos mercados que servem, a IA deve servir os colaboradores (ex. na produção de um guião de telemarketing e respetiva implementação) e os clientes (aumentando o grau de eficiência e capacidade de resposta no atendimento, 24h/dia, contribuindo para melhorar a experiência do cliente em qualquer dos momentos de verdade).

À escala mundial, antevê-se uma guerra sem quartel entre a Apple, Microsoft, Alphabet, Meta, NVidia, entre outras. É muito provável que assistamos no futuro à formação de um conjunto de tsunamis digitais que dominarão múltiplos setores de atividade, por via da inteligência artificial. Basta constatar, por exemplo, que os lucros da NVidia dispararam 580% em 2023 acompanhados de uma valorização de 250% da sua capitalização bolsista, em virtude da explosão da procura das suas unidades de processamento gráfico.

No final do dia devem ser as os governos e as pessoas a decidir como é que esta tecnologia disruptiva deve ser implementada e adaptada na sociedade. Até onde chegará? Ninguém sabe. Os limites? Também não. Uma coisa é certa: nada será como antes.


Pedro Celeste é diretor do Executive Master in Strategic Marketing da Católica Lisbon Business School & Economics

Este espaço de opinião é uma colaboração entre a Renascença e a Católica Lisbon School of Business and Economics

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