Opinião de Eunice Lourenço
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Um imenso desperdício

14 out, 2017 • Eunice Lourenço • Opinião de Eunice Lourenço


Relatório da comissão técnica independente sobre o que aconteceu em Pedrógão Grande não pode ficar sem consequências.

Um desperdício. Um imenso desperdício. De conhecimento. De tempo. De meios. E, sobretudo, de vidas. É o que mais custa ao ler o relatório da Comissão Técnica Independente sobre o incêndio de Pedrógão Grande, que mostra que as mortes de 17 de Junho podiam ter sido evitadas.

Ainda hoje parece impossível que tenham morrido 64 pessoas naquele dia e o país continue igual. A morte, qualquer morte, deixa sempre esse sentimento naqueles que lhe são próximos: como é possível que o mundo continue a rodar da mesma forma e com o mesmo ritmo? Aquelas 64 mortes não podem não levar a qualquer mudança. Sobretudo, porque hoje sabemos que, afinal, não foram uma inevitabilidade.

O relatório da Comissão Técnica diz que foram erros tácticos e estratégicos da Protecção Civil que levaram àquele resultado. Primeiro, um erro de avaliação. Perante tudo o que se sabia nos dias anteriores - o estado de secura dos terrenos, as temperaturas que se previam… – os meios deveriam ter sido recolocados no terreno em função do perigo e não continuarem dependentes de termos ou não chegado a determinada data.

Depois, um erro de percepção. Uma vez dado o alerta do início do fogo, devia ter sido atacado de forma mais efectiva de modo a que não se tornasse o monstro em que se transformou. As aldeias deviam ter sido evacuadas, as populações avisadas, os meios bem dirigidos.

Até às cinco, seis da tarde podiam ter sido tomadas decisões, levadas a cabo medidas que podiam ter evitado ou, pelo menos, minimizado a tragédia. Depois, diz o relatório, nada, nem todos os meios de qualquer protecção civil do mundo, podiam ter previsto a evolução do fogo e controlado o monstro.

Depois, muito depois, quando se deu conta das mortes, o posto de comando encheu-se de gente que não fazia falta e só atrapalhou, um comandante mandou sonegar informação da fita do tempo, os membros do Governo terão recebido informações erradas, o Siresp deu problemas… Mas isso já não interessa, é secundário, aí já não havia nada a fazer.

O que interessa é que, perante, primeiro, previsões e, depois, indicações de que se podiam gerar ali um fogo de grande amplitude não houve noção do que fazer e, quando houve, esbarrou-se em procedimentos que não davam resposta à realidade. Não havia vigilância fixa nem móvel porque ainda estávamos em Junho, um meio aéreo não foi accionado porque estava a 41 quilómetros e as normas prevêem o accionamento quando está a 40.

Rigidez de procedimentos e de recursos, deficiências de percepção do risco, subavaliação e excesso de zelo na fase de análise inicial do incêndio tudo se conjugou naquela tarde. Como noutras horas, noutros locais em que, felizmente, não se repetiu a fase louca do fogo de Pedrogão. Mas em que se repetiu o desperdício de conhecimento disponível, o desperdício da boa vontade e do voluntarismo de tantos bombeiros que põem a vida em risco sem que sejam uma verdadeira mais valia porque não conhecem o terreno ou não tem formação adequada.

É tempo, diz a comissão, de mudar: “O incêndio de Pedrogão Grande é um exemplo e um aviso de como os sistemas actuais de combate a incêndios não estão preparados para enfrentar um novo problema com raiz nas alterações climáticas. Este incêndio tornou esse problema evidente, pelo que urge entender o fenómeno e adaptar as estruturas de protecção civil para adquirir capacidade de antecipação e planeamento face ao mesmo, substituindo a lógica de ‘mais meios’ pela lógica do conhecimento e da proatividade.” Que este aviso não seja mais um desperdício.

Comentários
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  • Andre Sousa
    16 out, 2017 vila pouca de aguiar 16:23
    Cara jornalista, está nas vossas mãos fazer com que não haja consequências.... Os membros do governo ficam irritados quando vocês querem que respondam, vejo o secretário de Estado dos assuntos parlamentares, hoje 16/10 nas manhãs da RR. Que arrogância, que falta de respostas, que nojo! Não tenham medo...eles ameaçam ( a esquerdalha-- e não a esquerda) é assim...se puderam tentam que vos despeçam! Não precisamos de ir muito atrás....Mas não desistam, não temos mais nenhuma arma! A raposa é muito matreira, que manha tem o sô Costa