Opinião de Graça Franco
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Extrema-direita. O perigo adormecido permanece

24 mai, 2016 • Opinião de Graça Franco


Na Hungria e na Polónia já ninguém ousa contestar a legitimidade de quem quer calar a imprensa. Na Áustria, a extrema-direita fica agora mais forte do que nunca. Dá que pensar.

Um homem que precisa de andar armado para se sentir em segurança, na Viena do século XXI, diz tudo sobre si. Mesmo assim mais de metade dos eleitores austríacos consideravam-no a melhor opção para representar o seu país na comunidade internacional e estavam dispostos a colocar, nas mãos do jovem e “inseguro” Norbert Hofer, potencialmente perigoso, a possibilidade de dissolver o Parlamento e destituir o respectivo Governo. O mesmo que Marcelo Rebelo de Sousa pode fazer por cá.

O risco de chegada à Presidência da República de um líder da extrema-direita populista num dos 28 Estados-membros da União acabou afastado, à última hora, pelo candidato dos Verdes. Mas isso não impediu Norbert Hofer de saborear a derrota como se de uma vitória se tratasse. Intitulando-se como o verdadeiro representante do povo contra os interesses da elite e anunciando, desde logo, que a luta pela chegada ao poder do seu Partido da Liberdade não vai esmorecer.

O pior é que ele tem mesmo razão quando clama vitória, embora tenha perdido a Presidência por uns providenciais 31 mil votos ( meio estádio de futebol!) . Recebeu a confiança de muito mais de dois milhões de eleitores num país com uma população muito próxima da portuguesa.

O vencedor acabou por ser encontrado no extremo oposto do leque partidário. Desaparecido o centro, logo na primeira volta, o candidato mais votado surgiu à esquerda da esquerda, recaindo a escolha final do Presidente num ex-social-democrata que esteve uma dúzia de anos ao leme do Partido Ecologista e se retirou há pouquíssimo tempo da respectiva liderança.

Por mais radical que nos possa parecer o seu discurso ecologista todos lhe estamos gratos. Alexander van der Bellen fez toda a Europa suspirar de alívio e é claramente merecedor da nossa gratidão. Com ele a história não vai andar para trás tão cedo.

Mas o alívio não chega para baixar a guarda. O perigo adormecido permanece. Hofer, o jovem de pouco mais de 40 anos que dá ares ao “special one”, tem a mesma ambição de vencedor de Mourinho quando tinha a sua idade. Mesmo vencido já conseguiu captar a confiança de mais de 80% do operariado, mais de 60% do voto masculino e a maioria do voto rural e menos escolarizado. Além disso anunciou que vai continuar a trabalhar para chegar ao poder em 2018, ou seja, nas próximas legislativas. Já esteve mais longe.

Temos de reconhecer-lhe a competência. Como fizera Marinne Le Pen em França, também ele soube branquear o programa partidário. Expurgou-o de qualquer referência explicitamente xenófoba, limou-lhe as arestas neo-nazis e teve o cuidado de a nível internacional evitar as más companhias. Não quer ter nada a ver com a Aurora Dourada grega. Ainda bem.

Mesmo assim não escondeu os tiques populistas nem o discurso anti-refugiados ( 90 mil nos últimos meses ou seja pouco mais de um por cento da população) é como manda o cardápio destas novas forças emergentes contra o chamado centro politico além de eurocéptico q.b, proteccionista assumido , nacionalista e obcecado com a segurança. Nada que não se veja na Dinamarca, na Finlândia, na Suécia na Alemanha (com a chamada Alternativa) e na velha Frente Nacional francesa. Farinha do mesmo saco.

Um discurso radicalizado à direita que não é sequer apanágio exclusivo do continente europeu. Trump que também tem consigo o lobby das armas prova que o populismo é um fenómeno em ascensão em todo o mundo.

Filho de refugiados em fuga do regime estalinista russo, nascido antes da segunda guerra acabar, Alexander van der Bellen dá provas de não querer que a velha história se repita, mas é sintomático que não tenha conseguido sequer a indicação de voto dos dois partidos de centro que desde a II Guerra Mundial governaram a Áustria e, que desta vez, ficaram excluídos logo na primeira volta das presidenciais. Implodindo com estrondo, afogados em acusações de repartirem há demasiado tempo o leque dos empregos de Estado.

Onde já vimos isto? O que ser passa aqui ao lado em Espanha com o pendulo a deslocar-se perigosamente à esquerda depois dos escândalos permanentes onde se afogam o PSOE e o PP.

No caso austríaco o novo Presidente fez face à ameaça de regresso ao poder da extrema-direita apenas com o apoio do seu partido e de quatro mil personalidades da elite austríaca de todas as áreas. Nem sociais-democratas nem conservadores lhe deram aval, o que diz muito sobre a forma como os dois partidos foram varridos do mapa sem grandeza.

A história decide-se agora entre dois extremos assumidamente “anti-sistema”. E no caso dos libertários de Hofer vale a pena lembrar que não é sequer a primeira vez que chegam ao poder. Na viragem do milénio os seus antecessores no partido já tinham servido de muleta ao Governo dos conservadores. Nessa altura deixaram a Europa de tal modo em choque que a França (a braços internamente com a passagem à segunda volta das presidenciais do velho Le Pen) forçou a aplicação de sanções a Viena colocando o país em quarentena democrática. Não chegou.

Passados 15 anos já ninguém se espanta. Já não há força para lhes impor sanções. Na Hungria e na Polónia já ninguém ousa contestar a legitimidade de quem quer calar a imprensa. Na Áustria, a extrema-direita fica agora mais forte do que nunca. Dá que pensar. Nos anos 30 também foi assim. Escalando na crise económica, com o apoio do “povo” e legitimados pelo voto. Faz medo, muito medo.

Comentários
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  • João Santos
    12 jun, 2016 Do mundo dos vivos 23:51
    Pois é a senhora fala bem mas o que trás esta extrema direita para a ribalta é a corrupção dos políticos e a islamização do espaço europeu. Não sei mais que lhe diga, mas estas duas são a chave do insucesso do poder politico perante a escalada do islamismo na Europa e a sua ascendência na violência e imposição religiosa.
  • Indignado
    31 mai, 2016 Tomar 00:25
    Bem, pelo artigo, presumo que a autora também é xenófoba política (contra a direita). Isso explica que na RR, é mais fácil aparecer um comentador de esquerda, anti-cristão, abortista, do que gente que não pactua com a corrupção, hipocrisia e farsa democrática em que se vive cá e na Europa. É bem certo..., há várias formas de fazer censura!
  • Luis
    27 mai, 2016 Lisboa 08:07
    Ó minha querida senhora porque não fala na nossa extrema-direita? Não existe? Somos assim tão originais? Está apenas representada pelo partidozeco que se apresenta como tal? Ou será que muito da nossa extrema-direita está no PSD e no CDS? O PSD e o CDS de hoje e dos ultimos quatro anos não têm nada a ver com o PSD e com o CDS do passado. A nossa extrema-direita hoje sente-se mais solta e mais audaz com os ventos que começam a correr no Norte da Europa, como refere no seu artigo. Ou não? Quanto ao calar da empresa, em Portugal não é necessário. Em Portugal toda a empresa é manipulada e não é novidade para ninguém. Melhor em resultados que a censura é a contra informação e nisso damos cartas.
  • ver para crer
    26 mai, 2016 Santarém 22:06
    Mas o problema é mesmo que a história da Europa está mesmo a andar para trás ou melhor dizendo a caminhar para o abismo chamado perca de valores e onde qualquer extravagância e excessos têm aprovação quase certa em qualquer parlamento europeu, acrescentando a tudo isto os excessos da UE com globalizações ou introdução de gentes completamente opostas à nossa cultura e costumes com os resultados sobejamente comprovados e que custarão milhares de milhões aos europeus, as esquerdas ou extremas-esquerdas estão bem associados a todos estes fenómenos e não tardará que os franceses e outros comecem a gritar, basta!
  • António Rentz
    26 mai, 2016 Villach 11:25
    Esta jornalista, é ignorante. Vivo e trabalho na Áustria á mais de 20 anos.Casei com uma Austríaca e tenho 3 filhos Austríacos.Tenho cidadania Austríaca e votei na dita extrema direita.Extremista é esta jornalista paga pelo PSD ou pelo PS.Foram estes que levaram Portugal à bancarrota.
  • Joao
    25 mai, 2016 Viena 21:47
    Nao entendo porque teimam em descrever o partido austriaco "os Verdes" como sendo radical. Nao sei se quem o afirma já alguma vez ouviu um discurso ou um debate com um membro deste partido, que para mim de radical nao tem nada. Sao pró EU, pró Euro... e nao acho que forcar condutores a pagar uma taxa para investir nos transportes publicos, que por sinal sao excelentes, seja algo de radical. Há já alguns distritos de viena em que esse partido está no poder, e a tendencia tem sido de alastrar a outros dada a satisfacao dos eleitores. Já agora um pequeno esclarecimento... o Norbert Hofer nao vai concorrer nas legislativas, quem o vai fazer é o Strache. O Hofer so queria abrir caminho para o Strache tomar o governo, e é pouco mais que uma marioneta dele.
  • Madala
    25 mai, 2016 évora 17:55
    Perigosa a extrema direita? E a extrema esquerda, não? Os extremos tocam-se, tão perigosa é uma como a outra.
  • Português
    25 mai, 2016 Lisboa 17:05
    É incrível a subversão de valores e a campanha a que se assiste na comunicação social para tentar convencer os povos europeus de que o caminho correcto para a Europa é , apenas, o Euro, e que tudo que for fora dele está mal. Será o caminho mais correcto para para os grandes bancos, os grandes grupos económicos e para os "políticos" que se alimentam do que Bruxelas lhes dá e que já só pensam em viver às custas da União Europeia. Será que as pessoas não vêm que a união entre os povos não se pode impor por decreto? Eles bem o sabem e. por isso se fazem esforços para que os diversos povos vão, aos poucos perdendo a noção de nacionalismo, que tanto os assusta. Aos poucos vão impingindo o conceito do europeu versus qualquer nacionalidade que seja... Vão incutindo na mente dos povos europeus, onde alguns, como os nosso, são mais permissivos que outros, de que o politicamente correcto é nada fazer ou dizer e que, quem fala contra o actual sistema, ou é populista (como se dizer as verdades já não fosse possível, ou admissível), ou é fascista ou demente. Já analisaram quando começaram os verdadeiros problemas na Europa? Desde que o Euro entrou em vigor, onde e os Estados perderam muita da sua soberania, é verdade, e passaram a viver com a "mesada" de Bruxelas, sendo coagidos se pensam o contrário. Têm medo da extrema direita e esquecem-se de ser coerentes e fazem da democracia um regime hipócrita, que abafa quem é contra o sistema. A identidade não se anula. Melhora-se!
  • António Pereira
    25 mai, 2016 Chaves 16:34
    Belo artigo; dá para pensar!são os claros sinais de declínio do projecto europeu.Os refugiados vieram lembrar-nos o nosso egoísmo de base; tudo está bem se o fogo atear na casa do vizinho...
  • Alberto
    25 mai, 2016 Funchal 16:28
    Porque tem medo da Extrema-Direita e não tem da de Esquerda? Não conhece Censura, Compadrio, uso da Força contra Cidadãos, etc no Portugal actual e, mesmo, no órgão de CS onde trabalha?