Opinião de Graça Franco
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Graça Franco

Maria Barroso partiu ao encontro do Pai

07 jul, 2015 • Opinião de Graça Franco


Maria Barroso teve uma vida de exemplo inspirador para todos.
Maria Barroso partiu hoje ao encontro do Pai. O país perdeu uma grande senhora. Uma vida de exemplo inspirador para todos: na luta consequente e tenaz em defesa da liberdade e na conquista da democracia e numa dedicação sem limites ao exercício de uma cidadania plena de vocação universal que transvazava a dimensão estritamente nacional.

Lutou pela democracia como poucos, candidata a deputada pela oposição logo em 69, esteve na abertura do congresso da Oposição Democrática em 73 e na fundação do Partido Socialista, ainda em solo alemão. Viveu com o marido o exílio, mas não desistiu, nem se poupou a sonhar e lutar por um país diferente. Já no novo regime foi várias vezes eleita deputada e desempenhou por dez anos o papel de primeira-dama, desmultiplicando-se, de forma empenhada e activa, no apoio a uma pluralidade de causas de promoção social e defesa dos direitos humanos.

Na Renascença foi presença activa em várias campanhas que cruzavam a defesa dos direitos humanos e lusofonia. Os dotes de comunicação eram-lhe inatos e facilitavam que desse eficazmente a voz em defesa das mais variadas causas (da vida a Timor, passando pela luta contra as desigualdades e a pobreza e o direito à educação).

Actriz de teatro, onde se estreou ainda nos anos 40 sob a direcção da grande Palmira Bastos, não se furtou a deixar o seu nome também ligado ao cinema desempenhando papéis sob a direcção de Paulo Rocha ou Manoel de Oliveira. Não fora o desvio da sua vida para a política e talvez as artes lhe tivessem ficado a dever ainda mais. Ouvi-la declamar era, no entanto, um dos privilégios dos que lhe foram mais próximos.

Mulher de letras, foi educadora no sentido mais puro do termo. O antigo regime proibira-a de exercer a docência, mas acabou por lhe dedicar décadas da sua vida (como directora do Colégio Moderno), sendo figura inspiradora de gerações de alunos que passaram pela instituição familiar de que era presença diária e assídua até ao fim.

A cada conversa, contava episódios desse constante contacto com a juventude, a quem sempre fez questão de alertar para a importância de ajudar os outros, indo ao seu encontro. Desse contacto, deixava transparecer uma série de preocupações, por exemplo, com a crescente falta de acompanhamento de muitos jovens por parte da família. A causa da educação, a par da defesa na vantagem da auto-regulação dos média, em matéria de violência, sempre lhe foi particularmente cara.

Tive o enorme gosto de me cruzar repetidamente com ela chamada a participar nas iniciativas que promovia no quadro da Fundação Pro Dignitate. Em cada encontro aumentou a minha admiração pela intelectual perspicaz, a política nata, a mulher extraordinária que se revelava a cada contacto.

Em Abril deste ano, participei no evento Terra Justa, que decorreu em Fafe, onde foi apresentado o seu livro de crónicas sobre a “violência na TV”; um alerta para os efeitos perversos da exposição excessiva à violência dos média. Um livro que compilava textos de 20 anos de denúncia e alerta para esta causa e que a seu pedido tivera a honra e alegria de prefaciar. Nessa ocasião tive oportunidade de lhe poder prestar a publica homenagem recordando que foi graças à coragem de Mário Soares que a Renascença se manteve como voz livre e independente.

Recordo da ocasião um pormenor significativo da sua vitalidade e entusiasmo. A sessão de apresentação do livro começara já depois das dez e a organização não queria que se cansasse, sugerindo que a intervenção se limitasse a breves minutos, para que Maria Barroso passasse rapidamente a autografar a obra. Apesar da hora tardia, a autora agradeceu e brindou a sala cheia com a exposição improvisada de quase uma hora sobre os desafios que se colocam nos tempos actuais à educação dos mais jovens.

O Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica decidiu atribuir-lhe em 2012 o galardão “Fé e Liberdade”, a que a Renascença se associou com gosto porque poucos o mereceriam tão intensamente.

Depois de uma educação tradicional católica, só na sequência do acidente aéreo que colocou o filho entre a vida e a morte é que Maria Barroso redescobriu Deus. Mas depois dessa conversão inesperada e tardia, nunca mais deixou de testemunhar a sua fé de forma exemplar, mesmo nos meios fortemente laicistas e até hostis, revelando ser uma mulher livre, em todas as dimensões.

A sua admiração pelo Papa Francisco, com quem se encontrou pessoalmente, era transbordante. Gostava de contar que nesse encontro que a deixara particularmente feliz, o Santo Padre lhe pegara nas mãos e as mantivera entre as dele por longos minutos, num gesto de carinho que descrevia como “próprio de um pai”.

Pelo exemplo da sua vida notável, partilhando a mesma fé, não duvido que hoje encontrou o consolo e alegria do abraço do Pai infinitamente mais acolhedor que o simples gesto do seu vigário.
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