Opinião de Graça Franco
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Graça Franco

Vale a pena "escutar a cidade" para saber o que esperam de nós

05 mar, 2015 • Graça Franco • Opinião de Graça Franco


Vale a pena dar atenção às iniciativas que trazem para o debate público a relevância da mensagem cristã para crentes e não crentes, como a que está em curso em Lisboa sob o lema "Escutar a Cidade".
O Papa repete o que a Igreja sempre disse, mas concretiza essa mensagem a ponto de forçar a reflexão sobre a aplicação concreta dos velhos ensinamentos. Quase sempre, mesmo dizendo o óbvio, o Papa Francisco tem o condão de produzir a agitação das consciências. A sua pregação de "pastor com cheiro a ovelhas" produz mesmo entre os crentes o efeito de um murro no estômago.

"Descartar os idosos é pecado mortal". Dito assim trata-se apenas de recordar que continua em vigor o mandato de Deus entregue a Moisés, muito antes da própria vinda de Cristo, no quarto mandamento: "Honra teu pai e tua mãe". Quem abandona o seu pai ou a sua mãe está obviamente a violar este preceito e incorre num pecado gravíssimo (ofensa a Deus que rompe a própria relação com o Criador), por isso chamado "pecado mortal".

Onde está a novidade? Na concretização prática da noção de abandono. O Papa não recorda apenas a doutrina. Concretiza-a, com o exemplo de um idoso que conheceu num lar em Buenos Aires e que apenas tinha sido visitado pelos filhos por ocasião do Natal e do Verão. E comenta: "Oito meses de abandono!". "Isto chama-se pecado. Pecado mortal. Entendido?".

Dito assim, para quem não saiba isso, significa que o cristão que o cometa está impedido, por exemplo, de aceder à Comunhão. Sem arrependimento e confissão que repare este corte de relações com Deus, o descarte dos mais velhos traduz-se numa espécie de via verde para a infelicidade eterna.

Surge a pergunta: quantos de nós (e cada caso é um caso…) vivem sem nunca se questionarem sobre este pecado?

Bastam estas palavras para perceber a dimensão social da nossa fé e entender como a mensagem cristã, se fosse mais ouvida e sobretudo melhor vivida e acolhida pelos próprios cristãos, teria em si mesma uma força transformadora da sociedade para melhor. No reverso da medalha está também o reconhecimento de como a descristianização da sociedade vai a par do seu empobrecimento moral. A tal sociedade "perversa" de que fala o Papa e que não "honra os anciãos (e descarta a sua própria reserva de sabedoria) não será capaz de garantir o futuro dos mais jovens".

Vale por isso a pena dar atenção às iniciativas que trazem para o debate público a relevância da mensagem cristã para crentes e não crentes, como a que está em curso em Lisboa sob o lema "Escutar a Cidade" e que já vai na sua terceira edição num caminho iniciado em Janeiro, de preparação para o Sínodo Diocesano.

Trata-se de trazer "não crentes" para se pronunciarem, perante uma assembleia de gente com fé, sobre as suas expectativas quanto ao que poderá ser a acção da própria Igreja na cidade dos homens. E esta quinta-feira, nem de propósito, o tema em debate é exactamente o dos desafios que fenómenos como o envelhecimento populacional trazem às nossas sociedades, com tudo o que acarretam de alterações em domínios tão transversais como educação/saúde e/ou ordenamento do território.

A filósofa Olga Pombo, o geógrafo João Ferrão e a demógrafa Teresa Rodrigues (todos não crentes) acederam ao convite de uma multiplicidade de organismos, movimentos e associações cristãs (lideradas pelo jornalista e ex-director da RTP2 e do "Público" Jorge Wemans) e dispuseram-se a ir pelas 19h00 ao Fórum Lisboa dizer de sua justiça. Dizerem o que pensam poder ser o contributo do Cristianismo para a solução dos problemas dos Homens nestas áreas sensíveis.

Vale a pena ouvi-los e perceber a importância para a sociedade "laica" sobre o que pode ser o contributo da religião para o seu próprio enriquecimento.

Quem falhou os três primeiros encontros ainda está a tempo de agendar os próximos, sempre no Fórum Lisboa pelas 19h00. Encontros que vão ocorrer já a 16 de Abril sobre "Pobreza, Emprego e Crise financeira" e a 14 de Maio sobre "Ciência Arte e Conhecimento". Fica a sugestão.
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