Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Tentar perceber

​Medo do futuro

13 jul, 2019 • Francisco Sarsfield Cabral • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Vivemos uma onda de pessimismo sobre o futuro. Haja calma. Preparemo-nos para o pior, mas não o tomemos como inevitável.

Os progressos tecnológicos foram durante décadas encarados como um fator de crescente bem-estar da humanidade. Essa perspetiva positiva está hoje a ser combatida por muita gente que receia as consequências negativas desses progressos.

Não se trata apenas de artigos e livros sensacionalistas que transmitem a ideia de um futuro negro por causa desses avanços científicos e técnicos e que vendem bem. O físico britânico Stephen Hawkings pouco antes de morrer afirmou que “o desenvolvimento de uma inteligência artificial completa pode significar o fim da espécie humana”.

Simultaneamente, as alterações climáticas – uma evidência que só tontos como Trump negam – irão afetar sobretudo os mais novos. Por isso parte deles a contestação à forma débil como tem encarado esse problema a maioria dos governantes mundiais. É um caso evidente de “injustiça entre gerações”.

A presente tendência pessimista poderá ainda ser reforçada pela descrença pós-moderna na razão e na própria ciência – veja-se o movimento contra a vacinação. A um nível mais profundo o Papa Bento XVI denunciou a “conceção débil da pessoa”, que leva ao relativismo ético.

Progressos tecnológicos

Por outro lado, os progressos tecnológicos passam, na sua maioria, por uma extensão e uma maior sofisticação do uso da informática. Ora muitos não estarão intelectual e profissionalmente preparados para lidarem com a informática avançada.

Há, portanto, uma probabilidade significativa de o progresso tecnológico alargar ainda mais as crescentes desigualdades de rendimentos nas sociedades desenvolvidas. A menos que os governos estejam atentos ao problema e utilizem com critério os instrumentos fiscais e educativos de que dispõem para contrariarem o crescimento das desigualdades.

Para este ambiente de pessimismo em relação ao futuro contribui, também, uma situação nova: pela primeira vez desde há muitas décadas as jovens gerações sentem que, provavelmente, irão viver pior do que as gerações dos pais. Antes, era praticamente uma verdade adquirida a progressiva melhoria do bem-estar ao longo do tempo. Agora o envelhecimento da população, por exemplo, leva os mais novos a duvidarem de que, na velhice, terão uma pensão de reforma razoável.

Não exagerar no pessimismo

Dito isto, que são preocupações compreensíveis, importa não exagerar no pessimismo. É o caso, nomeadamente, das previsões apocalípticas sobre a destruição de empregos resultante dos “robots”, da inteligência artificial, da automação crescente.

A substituição do homem pela máquina aconteceu em larga escala no séc. XIX com a revolução industrial. Houve, então, operários (os “luditas”) que destruíram máquinas que lhes tiravam o emprego.

Ora, a médio prazo, a revolução industrial criou muito mais empregos do que aqueles que eliminou a curto prazo. E permitiu uma melhoria geral do nível de vida.

Só que entre uma coisa e outra decorreram longas décadas, durante as quais milhões de homens, mulheres e crianças foram desumanamente explorados em fábricas. É algo para que agora estamos prevenidos, pelo que se torna imperativo evitar os “sacrificados do progresso”, por causa da automação do séc. XXI – com apoios sociais, seguros de emprego, multiplicação de serviços de acompanhamento da terceira idade, etc.

A destruição de empregos

Por outro lado, as estimativas sobre a destruição de empregos e também sobre a sua criação são altamente falíveis. Por exemplo, Nuria Oliver, prémio nacional de informática e diretora da Vodafone, diz que a inteligência artificial irá criar 58 milhões de postos de trabalho. Esta previsão, do Forum Económico Mundial, necessitará, para se concretizar, de uma adequada política educativa e de formação de adultos na utilização da informática, política que não é seguro ser aplicada.

As previsões mais pessimistas são as que, assustando as pessoas, levam a que muita gente se precipite sobre elas. E às vezes não as compreende totalmente.

O semanário britânico “The Economist” abordou recentemente um caso exemplar. Em 2013 dois professores de Oxford, o sueco Carl Frey e o inglês Micahael Osborne, elaboraram um estudo sugerindo que, na década de 30 do presente século, a automação poderia eliminar 47% dos empregos nos EUA. O estudo teve enorme repercussão.

Mas Carl Frey, um historiador económico e um dos autores daquele estudo, veio agora dizer que houve uma errada interpretação das previsões feitas há 16 anos. Diz ele, num livro recente, que em 2013 apenas indicaram os setores e as atividades mais suscetíveis de perderem empregos por causa da automação. Não previram quantos postos de trabalho iriam, de facto, ser destruídos pela automação. Mas foi isto que passou para a opinião pública.

Só que, como observa o “Economist”, o medo vende – inúmeros divulgadores se apressaram a escrever livros anunciando catástrofes no mercado de trabalho como coisa certa. Cuidado, portanto, com as previsões, as pessimistas e as otimistas.

Preparemo-nos para o pior, mas não o tomemos como inevitável.

Comentários
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  • Sasuke Costa
    14 jul, 2019 14:14
    Pai nosso que estais no infinito.