Opinião de Henrique Raposo
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Começar a ser avó aos 70: outro fracasso coletivo

12 jul, 2019 • Opinião de Henrique Raposo


Em Portugal, milhares e milhares de pessoas estão a envelhecer sem o reconforto emocional que é ter netos. Para usar uma expressão que oiço muito, “não gozam os netos”, porque nem sequer os têm.

A cena repete-se com desconhecidos que me abordam na rua, com o público de conferências, com leitores via mail, com conhecidos, familiares e amigos ao vivo. A cena é, na verdade, uma queixa: não há meio de ser avó, nunca mais os meus filhos me dão um neto! Normalmente, são as senhoras que se queixam, mas também há lamúrias masculinas. Oiço e leio esta frase com uma regularidade impressionante, porque ser avó ou avô já não é uma inevitabilidade biológica e emocional.

É um cenário sombrio. Em Portugal, milhares e milhares de pessoas estão a envelhecer sem o reconforto emocional que é ter netos. Para usar uma expressão que oiço muito, “não gozam os netos”, porque nem sequer os têm. Claro que esta ausência de netos só pode reforçar a solidão inerente à velhice. É porventura uma das coisas mais tristes que podem acontecer a um ser humano: envelhecer sem a energia nova que os netos trazem; envelhecer sem a correcção dos erros da paternidade. Sim, sim, o amor incondicional derramado sobre neto é um mea culpa. Se nós, pais, estivermos atentos, vamos perceber que o excesso de mimo que os avós dão aos netos é na verdade para nós, é um pedido de desculpa por falhas com trinta ou quarenta anos.

Mas sabem o que pode ser ainda mais grave do que não ter netos? É começar a ser avó ou avô aos 70. Se pegarmos nas contas da semana passada, ficamos com uma matemática familiar ainda mais soturna: se muitos começam a ser pais aos 40, isto quer dizer que muitos começam a ser avós aos 70, aos 65 com sorte. Isto é outro fracasso coletivo, um fracasso familiar, sentimental, demográfico. A entrada em cena tão tardia do carinho avoengo é outro factor extra para a baixa natalidade. Como é que uma mulher ou homem na casa dos 70 pode ajudar a criar o neto? As limitações são evidentes. E, quando a criança tiver 10, a avó ou avô terá 80. Quem são as pessoas que aos 80 anos têm energia para ajudar a cuidar de um neto no dia-a-dia ou nas férias? Aos 80 anos, nós já merecemos um neto como babá ou dama de companhia, e não o inverso. Está tudo ao contrário.

Está tudo ao contrário, porque criámos a ilusão da juventude eterna, porque criámos um mito perigoso: se seguíssemos as dietas mágicas e os exercícios milagrosos, os 40 seriam os novos 20. Só que não é bem assim, até porque os 70 nunca serão os novos 50.

PS: dedicado ao Pedro.

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  • João Lopes
    12 jul, 2019 18:06
    Artigo interessante!
  • Ed F
    12 jul, 2019 15:51
    Obrigado por ter escrito e partilhado este artigo connosco, Henrique. Como um jovem ja nos trinta, e sem filhos, acredito que parte do problema esta na minha geracao, mas tambem nas circunstancias que nos rodeiam, e que nos levam a hesitar constituir uma familia. Acredito que a minha geracao formou-se numa mentalidade de individualismo, que devemos seguir os nossos sonhos e projetos, e que estes nao tem necessariamente um prazo de validade; embora haja lados positivos em tal mentalidade, isso tambem nos leva a adiar alguns projetos, como criar uma familia, ter uma casa, etc. A tal ideia de uma juventude quase eterna, Existe tambem o ambiente que nos rodeia... a crise economica dos ultimos anos deitou abaixo muitas das nossas expetativas - algumas delas irrealistas, mas outras, como a de ter um nivel de vida pelo menos semelhante ao dos nossos pais (emprego estavel, conseguir comprar a propria casa, etc), nao parecem ser possiveis por agora. O tipo de economia que temos nao facilita a criacao de uma carreira estavel, a principal seguranca para a criacao de uma familia. Infelizmente, tambem optamos por uma sociedade de consumo, onde bens estao acima do individuo. Claro que no final, "onde existe vontade, existe uma solucao". Mas as exigencias do mundo atual reencaminham os nossos esforcos para outras prioridades. Sera que estamos todos (jovens e mais crescidos) dispostos a mudar isso? Nao podemos depender do Estado para tudo, temos que tomar a nossa propria iniciativa.
  • Cat
    12 jul, 2019 Alcobaça 12:42
    Henrique, gostei muito do seu artigo e concordo com quase tudo. Gostava porém de acrescentar que, por vezes, as razões pelas quais não se tem filhos antes dos 40 não se deve ao desejo de manter a juventude dos 20 ou 30. Mas sim, por falta de um trabalho estável. Tenho quase 42 anos e ainda sem trabalho permanente embora tenha tido a sorte de trabalhar para entidades muito boas que, embora publicamente dizem uma coisa, na prática as coisas funcionam de forma diferente. Também pensei em adoptar ou in vitro, mas qual entidade dá uma criança a uma pessoa solteira e sem trabalho estável? Aceito quem diga:"Se estiveres à espera do momento perfeito, nunca chegará", mas o que é melhor: arriscar, e se correr mal voltar para casa dos pais, já com mais de 70 anos, com uma criança e sobrecarregá-los nesta idade depois de terem dedicado uma vida aos filhos? Será justo, melhor? A flexibilidade laborar e ter várias experiências profissionais é positivo mas deve haver um limite, exactamente para não criar estes problemas sociais e demográficos.... quando era mais nova, até gostava de ter gêmeos, mas estou a ver que não vou ter nenhum... E não é por opção, nem vontade de aparentar sempre 20 anos!
  • Vera Costa
    12 jul, 2019 12:34
    "Como é que uma mulher ou homem na casa dos 70 pode ajudar a criar o neto? As limitações são evidentes. E, quando a criança tiver 10, a avó ou avô terá 80. Quem são as pessoas que aos 80 anos têm energia para ajudar a cuidar de um neto no dia-a-dia ou nas férias? Aos 80 anos, nós já merecemos um neto como babá ou dama de companhia, e não o inverso. Está tudo ao contrário." E agora! como é que eu vou explicar, o que não tem explicação? Como é que uma avó de 60 anos chegou aos 70 com a mesma reforma? Um neto não serve só para dar beijinhos, fazer festinhas e mudar as fraldas!!! Estamos todos realmente com uns dez ou quinze anos de atraso... Eu acho que os próximos netos, poucos vão saber o que é uma avó ou um avô? Ainda foi esta semana, que através da rádio, eu ouvi alguém que dizia que pagar um infantário, é mais caro do que alugar uma casa! Então... como é que eu posso explicar, o que não tem explicação? Eu acredito que as coisas se encaixem! porque, se não há netos, é porque ainda restam uns, que têm consciência! Mas, os netos vão fazer falta, num futuro próximo!