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A Madeira de... Joana Marques

02/07/2019 • Joana Marques


Quem me conhece sabe que defendo que uma das coisas mais importantes numa viagem é poder provar o destino, saboreá-lo! Foi o que fiz com toda a convicção num fim-de-semana na Madeira...

Nota prévia: o meu filho, Xavier, é capaz de ser o mais ávido consumidor de bananas da Península Ibérica. Sempre que acorda, às seis da manhã (!) a primeira coisa que diz, antes mesmo de bom dia, é “banana”. Já agora convém dizer que tem dois anos e meio. Se tivesse dezasseis esta história deixava de ser enternecedora e passava a ser apenas mais um relato de um adolescente insuportável e mal educado. Para já ainda está na fase amorosa, porém insaciável. Tudo isto para explicar que o fim-de-semana na Madeira era aguardado com grande expectativa por parte do Xavier, porque eu lhe disse que íamos à “terra das bananas”. Desde então todos os dias me perguntava quando íamos a essa autêntica “terra prometida”.

E lá fomos nós, numa sexta-feira, depois de um dia muito agitado, para o Aeroporto Humberto Delgado. Para os mais distraídos, não, o Humberto Delgado não foi jogador de futebol (não confundir com Humberto Coelho). Esse privilégio de baptizar um aeroporto ficou reservado para o madeirense Cristiano Ronaldo. Apesar de o nosso voo ser já tarde, ninguém pregou olho. Quer dizer, eu tentei, mas o Xavier não deixou, tal era o entusiasmo de estar a voar.

Quando aterrámos no Funchal já passava da meia noite, e no caminho até ao nosso hotel fomos vendo as várias localidades iluminadas por luzinhas coloridas, graças aos festejos em honra de São Pedro.

Fomos recebidos com enorme simpatia (apesar de já ser uma da manhã) no Hotel The Vine, um hotel que, viríamos a descobrir daí para a frente, merece as cinco estrelas que ostenta. Àquela hora da noite a única particularidade que nos chamou a atenção foi a decoração muito original que, viríamos a saber depois, é da autoria de Nini Andrade Silva, uma designer madeirense que vale a pena conhecer. Toda a decoração do hotel foi pensada em torno da vinicultura e das quatro estações do ano, unindo esse tema aos elementos naturais da ilha, como o calhau que encontramos no chão, em vez do banal soalho ou alcatifa. É de facto um hotel que marca logo pela diferença e que, não menos importante, tem camas muito confortáveis. Tão confortáveis que o Xavier, sim, aquele de que vos falei há pouco e que acorda por hábito às seis da manhã, deixou-se dormir até às nove. Por isso, posso dizer-vos, sobretudo aos pais de filhos pequenos: quer dormir bem? Venha à Madeira!

Assim, começamos o nosso primeiro dia de passeio na Madeira com a energia de uma noite bem dormida, como há muito não acontecia!

Descemos para um incrível pequeno-almoço (banana para o Xavier, claro) e deviamos ter-nos lembrado de comer pouco, já que às 10h15 tinhamos marcada a nossa “Food & Wine Tour”. A verdade é que já tinha visitado o Funchal duas vezes, uma em lazer outra em trabalho, mas nunca com o tempo suficiente para me sentar... à mesa. Que é, como se sabe, uma das coisas mais importantes de qualquer viagem: provar o destino! Saboreá-lo. E se isso acontecer com alguém que realmente percebe do assunto, tanto melhor, para não irmos ao engano. Foi o que aconteceu graças à Graça. Graça Lopes, a nossa guia de serviço, para descobrirmos os sabores da Madeira.

E é incrível como, conhecendo já a cidade, rapidamente demos por nós em ruas e recantos que não conhecíamos, e a provar coisas das quais nunca tÍnhamos ouvido falar.

Tudo começou com uma visita às caves da Blandy’s, uma das mais antigas companhias de vinho da Madeira. John Blandy, o fundador da Blandy’s Madeira chegou à ilha em 1808 e seguiram-se-lhe várias gerações de Blandys, dedicadas à produção deste “néctar dos deuses” que eu, confesso, nunca tinha bebido antes das onze da manhã. Mas sabe bem na mesma, posso garantir! Provámos um vinho meio seco, com três anos, e outro doce, com cinco. E o verbo é mesmo “provar”. Não podíamos beber tudo porque ainda tínhamos sete paragens pela frente (e um carrinho de bebé para empurrar). A Graça contou-nos que existem garrafas de Blandy que custam milhares de euros, e nós tratamos de sair dali depressa, antes que o Xavier fizesse algum estrago!

Fome ainda não havia, já que tinhamos tomado o pequeno-almoço há poucos minutos, mas para chocolate não é preciso ter fome, já se sabe. Basta gula, e essa temos de sobra. Fomos até à Rua da Queimada de Baixo, onde encontrámos uma lojinha simpática chamada “UAU Cacau”, onde provámos chocolates com combinações absolutamente improváveis (e que correm bem, o que nem sempre acontece nestas invenções!). Se estão à espera de amêndoas ou caramelo salgado, esqueçam, é muito mais inovador do que isso. Provámos chocolate branco com pitanga e, pasmem-se, um bombom de tomate. Tamarilho, na verdade (também conhecido como tomate arbóreo). Além dos óptimos sabores, que dão vontade de pedir todos os bombons da montra, há ainda os formatos originais: o chocolate de vinho da madeira tem forma de barril, o de café é uma pequena cápsula, tipo Nespresso. Até dá pena desfazê-los na boca, mas o que tem de ser tem muita força!

Já que estávamos no capítulo dos doces, seguimos para a Fábrica de Santo António. Mais um negócio (muito) antigo, já que foi fundada em 1893, e vai já na sexta geração. Estes exemplos fazem-nos dar razão àquela expressão do “muitos anos a virar frangos”. Porque é assim, de facto, que se atinge a perfeição. E posso dizer-vos, sem qualquer exagero, que encontrei aqui a bolacha perfeita! Broa de gengibre, decorem este nome. Além de bolachas de avelã, experimentámos também o típico bolo de mel da Madeira, o tal que tem de se partir à mão, sem faca (espero que a ASAE não se lembre de embirrar também com isto) e, para o Xavier, a típica bolacha Maria, que está na génese desta Fábrica de Santo António (e que é bem melhor que as de pacote, posso garantir).

Encerrando (por agora) a secção dos doces, seguimos para o restaurante “O Calhau”. Ficámos pela esplanada, a aproveitar o clima madeirense, que nos causa tanta inveja, a nós continentais, ao longo do ano. Serviram-nos dois crostinis. Sim, crostinis, mas nada temam, que os sabores eram bem portugueses: peixe espada panado com maracujá, e queijo fresco com mel de cana e abacate. A acompanhar, um copo de Barbusano, vinho DOP madeirense. Fiquei fã!

Demos depois uma volta no Mercado dos Lavradores, que estava em autêntica hora de ponta, com toda a gente a comprar fruta, legumes e peixe para o almoço! Avistámos à distancia um gaiado, peixe que viríamos a conhecer mais proximamente passado um bocado. Sim, porque estávamos semi-almoçados mas ainda comíamos mais qualquer coisinha, claro.

De porta em porta, chegámos à porta do Venda da Donna Maria, onde reencontrámos o gaiado, agora seco, no prato, com salada. Posso dizer-vos que o sabor é, no mínimo, intenso! É uma espécie de atum mais apurado! Ficámos a saber que, para chegar àquele ponto, o peixe seca um mês ao sol. Faz umas férias tipo Cinha Jardim, portanto. O bolo do caco vinha a acompanhar, como não podia deixar de ser, e uma carne em vinha de alhos chegou a seguir. A Graça contou-nos que é um dos pratos típicos do Natal madeirense! Gostei. Trocava, na boa, pelo bacalhau com todos.

Sobremesa não comemos, porque já tinhamos outra em vista para mais tarde! Fomos antes para o digestivo. Poncha, claro. Na Mercadora, uma velha mercearia, hoje dedicada a sobretudo à venda de rações para animais (estranha mistura, mas quem sabe se os cães não apreciam poncha). Foi lá que conhecemos a simpática dona Inês, e provámos a sua poncha, claro. Ficámos a conhecer também uma mistura de especiarias caseira, que serve para temperar tudo. Mas como não íamos para cozinhar, apenas para comer, seguimos viagem!

Cristalina Chique. Podia ser o nome de uma danceteria, mas não. É na verdade um snack bar pelo qual passaríamos, indiferentes, se não fosse a Graça, que nos sugeriu que nos sentássemos na esplanada, e pediu duas Brisas maracujá (único refrigerante de que gosto!) bem frescas, e uma sandes de filete de espada. Só tenho pena que maracujá, em português, não faça jus ao seu nome inglês: passion fruit!

E apesar de já irmos quase em três horas de percurso, que passaram a correr, ainda faltava uma paragem. A última tinha de ser doce. No Chocolate e Menta, uma casa de chá com vista para o teleférico (no qual andei da última vez, não me apanham noutra! Muito giro, sim senhor, mas tenho vertigens). Um chá de funcho para ajudar a digerir o festim gastronómico e a típica queijada madeirense.

Estávamos prontos para dormir a sesta! Quer dizer, o Xavier dormiu no caminho, mas nós não temos o luxo de ter alguém a empurrar-nos o carrinho. Despedimo-nos da Graça e descemos até à avenida do mar, onde o Xavier ficou louco com “um ananás muito gigante”. Era uma palmeira. Está bem visto. É bom viajar com crianças porque vêem sempre coisas que são invisíveis para nós (já dizia o Principezinho!).

Regressados ao hotel, e cansada de tanto comer (é um exercício exigente) resolvi descer até ao spa para fazer uma massagem. E não foi uma massagem qualquer, foi vinoterapia! Já tinha descoberto de manhã que o vinho da Madeira dava para aperitivo, para acompanhar peixe, carne, e para a digestão. Descobri assim que também serve para uma massagem revigorante!

E foi, de facto, como nova, que saímos rumo à Fortaleza de São Tiago. Construída no início do século XVII, com a finalidade de defender o porto do Funchal, serve hoje para alojar o Restaurante do Forte. Sim, já há umas três ou quatro horas que não comíamos, estavamos a ficar com fraqueza! Vou poupar-vos à enumeração exaustiva da ementa. Conto-vos apenas que éramos os únicos portugueses presentes no restaurante (além dos empregados, claro, que nos confidenciaram essa originalidade estatística). Deve ser a isto que chamam “vá para fora cá dentro”, mas está na hora de mais compatriotas conhecerem o restaurante do forte! Fomos muito bem tratados e, às dez e meia, convidaram-nos a subir à parte de cima do forte, para vermos o fogo de artifício, lançado no Molhe da Pontinha, e bem visível ao longo de toda a Avenida do Mar. Sim, na Madeira há fogo de artifício todo o ano (bem dizia a Dona Dolores, quando Ronaldo ganhou a primeira bola de ouro “já podem soltar os fogos!”). Durante o mês de Junho houve fogo de artifício todos os fins de semana, graças ao Festival do Atlântico. O Festival trata-se, na verdade, de uma competição. Em prova estavam a Polónia, o México e a Itália, que apresentaram os respectivos espectáculos pirotécnicos. Fim da história: a Polónia venceu e o Xavier foi dormir contente por ter visto, pela primeira vez “fogo fício”!

Na manhã seguinte descemos já meio desgostosos para o pequeno-almoço, por ser já o último dia na Madeira. Um fim-de-semana é manifestamente pouco, com tanta coisa para ver! Feito o check out, saímos, com pena, do hotel The Vine, prometendo voltar um dia.

Revisitámos zonas da ilha que nos trazem boas recordações: a Calheta, o Jardim do Mar, Câmara de Lobos, com as ruas ainda enfeitadas com caravelas, por causa das marchas de São Pedro, e terminámos o périplo do Cabo Girão. Se quisesse usar uma frase cliché diria que a vista “é de cortar a respiração”, mas felizmente a vista não foi responsável por nenhum sintoma estranho, a não ser vertigem, já que o miradouro tem chão de vidro, o que causa um certo aperto a quem não aprecia alturas, como eu! Mas valeu a pena “arriscar”.

Na zona velha do Funchal fotografámos as típicas portas pintadas, que já tinham várias novidades desde a minha última visita à cidade. Não conhecia ainda a porta dedicada ao Club Sport Marítimo nem ao ex-Presidente Alberto João Jardim (que ficou favorecido: a televisão engorda mas a pintura, pelos vistos, emagrece!).

Para terminar esta curtíssima estadia na Madeira, adivinhem onde fomos? Almoçar, claro! E estava guardada para o fim a melhor refeição de todas, para sairmos com uma boa recordação. Fomos até à Estalagem da Ponta do Sol, e este simples “fomos” esconde toda uma dificuldade, gritos entre o casal, ruas íngremes, becos sem saída, um GPS que não funciona, um marido que se recusa a pedir informações aos transeuntes, uma mulher que liga para a recepção da estalagem pedindo coordenadas, enfim, foi difícil, não vou negar. Acho que é mesmo uma estratégia da estalagem, uma espécie de forma de selecção de clientela: só os mais fortes sobrevivem e conseguem chegar lá! Por outro lado, sabe ainda melhor quando nos sentamos no restaurante a ver a vista. A montanha de um lado, o mar do outro. Lá em cima, uma piscina “infinita” com vista sobre a ilha. Já sei onde quero passar a minha reforma: na Ponta do Sol! Agora é só esperar quarenta anos, mais coisa menos coisa...

Quando demos por nós, perdidos que estavamos naquele ritmo de quem não tem pressa para nada, estavamos atrasados! Lá fomos nós para o aeroporto, passando por extensas áreas de bananais. “Vês, Xavier? A mãe avisou. Isto é a terra das bananas”. Muitas vezes prometo-lhe coisas que não consigo cumprir, caí nesse erro quando garanti que, lá de cima, do avião, ia conseguir ver a casa da avó (má ideia, porque deu choradeira) mas, no que toca à Madeira, sei que a minha promessa correspondeu às expectativas! Ele gostou da sua primeira vez na Madeira. Nós gostámos de conhecer uma nova Madeira e já estamos a fazer planos para a próxima!

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