Opinião de Henrique Raposo
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Cristã e lésbica (por esta ordem e sem contradição)

28 jun, 2019 • Opinião de Henrique Raposo


O erro da “ideologia de género” é a anulação da natureza humana, é a anulação da biologia e da psicologia humana que são anteriores à vontade da sociedade e da própria pessoa. Uma pessoa não escolhe ser gay ou hetero, descobre-se enquanto gay ou hetero.

O catolicismo tem de resolver o seu problema com a homossexualidade. E esse problema radica num ponto há dias salientado pelo leigo dominicano Sérgio Dias Branco no Ponto Sj: a igreja continua a ver na homossexualidade uma escolha, e não uma descoberta. É um erro. Pior: é um erro que coloca a igreja ao lado da tal “ideologia de género”. Explico porquê.

O erro da “ideologia de género” é a anulação da natureza humana, é a anulação da biologia e da psicologia humana que são anteriores à vontade da sociedade e da própria pessoa. Uma pessoa não escolhe ser gay ou hetero, descobre-se enquanto gay ou hetero. Esse desejo sexual já lá está na sua natureza. Quando dizem que a “orientação sexual” é um mero produto do condicionamento social e que a sexualidade é uma mera “construção social” e, portanto, os cartões da escola não devem ter “pai” e “mãe” mas sim “progenitor um” e “progenitor dois”, os ideólogos da moda incorrem num absurdo. Um absurdo que até põe em causa décadas de luta pela igualdade de mulheres e gays. Porque o que esta falácia anda a dizer é que, ora essa!, não há mulheres nem homens, nem hetero nem gays, há apenas uma pasta sem forma que cada um pode moldar como bem entende. É a ideia de que a razão humana é omnipresente e omnipotente.

O curioso é que este absurdo é partilhado por muitos católicos e até pela igreja, que, como já disse, continua a dizer que a homossexualidade é uma escolha. Alguns católicos já nos dizem que temos de respeitar essa escolha. Mas, mesmo este respeito, parte de uma base errada: ser lésbica não é uma escolha, é uma condição natural.

Acabei de ver há dias uma série da HBO que pode iluminar este debate. "Gentleman Jack” conta a história real de uma aristocrata inglesa do século XIX, Anne Lister, que assumiu mais ou menos às claras a sua condição homossexual. Não se pense porém que estamos perante uma revolucionária ou “progressista”. A série da notável Sally Wainwright ("Happy Valley") revela-nos uma personagem complexa: se anseia pela igualdade amorosa e sexual para as pessoas de inclinação homossexual, Anne é profundamente snobe na defesa das desigualdades sociais entre aristocratas e povo. E, acima de tudo, é conservadora e cristã. Ela quer casar e formar uma família com a sua paixão, Ann Walker. Não sente qualquer contradição entre a sua fé e o seu desejo, porque percebe que foi criada assim por Deus. Não quero revelar o final para quem ainda não viu, mas digo apenas que a cena da igreja é comovente como poucas.

Anne assume que foi criada assim por Deus. Podemos debater este ponto. Uma pessoa é criada lésbica desde o início? Ou é algo que surge na gestação? Ou nos primeiros dias ou meses após o nascimento? Não sabemos. O que importa salientar é que a pessoa descobre-se homossexual, não se cria homossexual. É uma condição que é dada à pessoa por uma força ou forças que ela não controla, não é uma autorecriação. Portanto, a série levanta problemas aos dois lados da equação, quer ao lado da “ideologia de género”, quer ao lado dos sectores católicos que recusam aceitar a ideia da homossexualidade enquanto parte da Criação.

Para tentar flanquear a questão, alguns católicos dirão que os gays fazem parte da Criação mas enquanto erros ou falhas. Ou seja, alguns dirão que a homossexualidade deve ser vista como uma doença congénita como tantas outras. E então? Mesmo que estivesse correta, está visão nunca poderia justificar o boicote católico aos homossexuais. Não acolhemos nós a vida de todos as pessoas que já nascem “doentes” ou “deficientes”? Já é tempo de sairmos deste bloqueio. A cristandade levou um milénio e oito séculos para ilegalizar de vez a escravatura. Dois milénios inteiros não chegam para normalizar Mateus 19, 12: "Há eunucos que nasceram assim no seio materno"?

Comentários
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  • Eunice Sousa
    12 jul, 2019 Aveiro 08:17
    Gosto muito de o ler. Concordamos muitas vezes. Mas, desta vez, não. Citou Mateus relacionando a palavra eunuco com a homossexualidade não podendo, de todo, ser assim usada. Um eunuco não é um homossexual. Tenho a certeza que sabe disso! Para ser verdadeiramente honesto no uso do texto bíblico, tem que considerar com frontalidade Romanos 1 que fala com clareza desta questão, e outros textos que explicam muito bem o que Deus pensa sobre esta questão. É é só isso que interessa para quem diz ter fé no Deus Verdadeiro! A homossexualidade é um pecado, como a mentira, o roubo, o homicídio, a prostituição, o adultério, etc, etc, etc. Cristo morreu e pagou pelos pecados daqueles que nEle confiam e que sabem que não podem salvar-se mas podem ser salvos por Ele. Mas, como o Senhor Jesus disse à mulher adúltera em João 8, "Vai e não peques mais!" Ajudar o pecador, recebê-lo e "encaminhá-lo" (mostrar-lhe Cristo, porque Ele é o único Caminho!) não é concordar com o seu pecado ou tornar o seu pecado aceitável.
  • João Lopes
    02 jul, 2019 11:31
    O normal é nascer-se homem ou mulher. Os homossexuais são seres humanos, devem ser respeitados, mas têm um desvio grave na sua sexualidade/personalidade: as causas podem ser variadas, e podem não ter toda a culpa do facto. Mas além de serem, em geral, bastante agressivos, costumam chamar homofóbicos a todos os que não concordam com as suas ideias! Além disso contam com o “lobby” homossexual que é poderoso no mundo das finanças, no mundo das artes, da imprensa e da política…
  • João Lopes
    02 jul, 2019 10:47
    O normal é nascer-se homem ou mulher. Os homossexuais são seres humanos, devem ser respeitados, mas têm um desvio grave na sua sexualidade/personalidade: as causas podem ser variadas, e podem não ter toda a culpa do facto. Mas além de serem, em geral, bastante agressivos, costumam chamar homofóbicos a todos os que não concordam com as suas ideias! Além disso contam com o “lobby” homossexual que é poderoso no mundo das finanças, no mundo das artes, da imprensa e da política…
  • Antonio Gomes
    01 jul, 2019 08:08
    É um nítido contrassenso dizer que o/a homossexual não nasce assim; antes, em dado momento, descobre-se. Se a América não existisse, Colombo não a descobriria. Quanto à Ideologia de Género, é mais uma táctica de manipulação política — tal como as séries televisivas.
  • Sasuke Costa
    30 jun, 2019 13:14
    Para quem consegue ver alguma normalidade ou anormalidade neste assunto (destas preferências libidas) ficou-me na memória a monstruosidade praticada com Alan Mathison Turing como prova de que o verdadeiro mal não é em si essa escolha mas sim a forma diabólica de como essa mesma escolha pode ser usada para oprimir o outro.
  • Pamalore
    29 jun, 2019 Porto 15:02
    Estaremos na emergência de uma nova religião em Portugal, o "Raposismo"? Se for o caso, a Emissora Católica Portuguesa parece perfeitamente aberta à sua integração.
  • O Idiota Util
    29 jun, 2019 Género 13:45
    Este é o quinto objectivo da "Carta Da Terra", tão apregoado pelos meios de comunicação e políticos, tem por fim orientar as mentes e os países para os problemas climáticos e com eles justificar a necessidade de reduzir a poucos milhões a população da terra. Com a difusão do 5º objectivo (Igualdade de Género), ideologia de que o género é algo construído pela sociedade. Os seus ideólogos querem promover a homossexualidade, uma vez que homossexuais e lésbicas não se reproduzem. A apregoada e incentivada rebeldia dos jovens, contra as alterações climáticas tem objectivos semelhantes : levar a sociedade a aceitar a guerra, como meio de controle da população. Aos olhos dos meios de comunicação, tudo é lindo, porém esconde o planeado extermínio, em massa, da maioria da população da terra, especialmente a população dos países mais pobres.
  • Jorge
    29 jun, 2019 Lisboa 10:44
    Caro Henrique, sugiro que (re)leia os três parágrafos do Catecismo da Igreja Católica (2357-2359) sobre a atração pelo mesmo sexo, para ver que a Igreja está tão distante dos ideólogos do género (espécie em franca expansão) como dos católicos que acham que essa atração é uma doença congénita (espécie com quem nunca me cruzei, apesar de ser católico há mais de 40 anos). Ao mesmo tempo que a Igreja apela ao acolhimento das pessoas com atração pelo mesmo sexo, lembrando que essa atração não é uma escolha sua, recorda a responsabilidade dessas pessoas nos atos sexuais que decidem realizar em função dessa atração, e que a Igreja considera desordenados. A Igreja propõe assim uma terceira via, muito bem explicada no documentário “The Third Way: Homosexuality and the Catholic Church”, de livre acesso na Internet, que o aconselho a ver. Muitos médicos e psicólogos têm corroborado cada vez mais a tese da Igreja de que ninguém nasce com atração pelo mesmo sexo, a qual decorre de muitos factores e é, em muitos casos, uma resposta a uma percepção de falta de afeto ou afirmação, percepção essa que pode ter lugar ainda durante a gravidez. Precisamos de falar mais em Igreja sobre este assunto e uma boa base de partida é o documento “Homem e Mulher os criou”, que a Congregação para a Educação Católica lançou este mês e também está acessível na Internet. Abraço e boa leitura! Jorge
  • Vera Costa
    29 jun, 2019 08:36
    "os cartões da escola não devem ter “pai” e “mãe” mas sim “progenitor um” e “progenitor dois” Que brincadeira de mau gosto, logo no dia de São Pedro, que tem a chave de entrada para o Céu! Quando oiço estas coisas, começo logo a pensar em sismos, furacões e outras aflições!!! Francamente! se é o cérebro que controla todos os sentimentos e todos os movimentos do nosso corpo, como é que podem dizer absurdos deste tamanho??? "Se eu penso, logo existo" Se penso bem, existo como Deus manda! se penso mal, vale mais a morte que tal sorte!
  • HOMEM E MULHER
    28 jun, 2019 TERRA 23:39
    A ideologia de género está a fortalecer-se entre os jovens. Crianças e jovens estão sendo doutrinados em muitas escolas com esta doutrina da impureza. As crianças são ensinadas de que género não existe, que pode ser-se masculino e feminino ao mesmo tempo, ou vice-versa quando se trata de mulheres. Isto está a levar os jovens a terem atitudes e comportamentos de parentalidade que vão contra a sua sexualidade. Homossexualidade, lesbianismo, transexualismo e todas as outras aberrações sexuais é o que pretendem os promotores dessa doutrina implantar na juventude. Muitos jovens já se confundem com sua sexualidade e adoptam comportamentos contrários ao seu sexo. Sociedades Hermafrodita. hermafroditas , estão-se configurando. Todo isto é obra do maligno que quer implantar na infância e na juventude, a doutrina da impureza sexual, de modo que no futuro desaparecer a relação do homem e da mulher unidos pelo vínculo do matrimonio.