Opinião de João Ferreira do Amaral
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Má comunicação?

10 mai, 2019 • Opinião de João Ferreira do Amaral


Não há, hoje, praticamente domínio da governação em que os órgãos da União não metam o bedelho, na maior parte dos casos sem qualquer justificação.

Uma das teses favoritas da burocracia europeia, em especial da ligada à Comissão, é que, se a União perdeu bastante apoio popular e está longe de ser hoje o projecto mobilizador que foi no passado, é porque comunica mal, ou seja, não consegue convencer os cidadãos dos estados europeus das grandes contribuições que realiza em prol desses mesmos europeus.

Esta forma de pensar é, a meu ver, duplamente perigosa. Em primeiro lugar, porque ignora o fundamental, ou seja, o que está na base da derrapagem do projecto europeu. O que está a causar esta perda de popularidade é um factor que se descreve muito facilmente, embora seja muito difícil de reverter. Esse factor é o desequilíbrio entre funções da União e funções dos estados membros, que se criou desde que a Europa da CEE se transformou em União Europeia em 1992 e que se tem vindo a agravar dia a dia, concentrando poderes cada vez maiores na União.

Não há, hoje, praticamente domínio da governação em que os órgãos da União não metam o bedelho, na maior parte dos casos sem qualquer justificação. A paranóia do centralismo traduz-se na pressão permanente da Comissão Europeia e da maioria do Parlamento Europeu no sentido de se estabelecerem mais políticas únicas num espaço que, todos sabemos. é profundamente heterogéneo.

Políticas únicas para um espaço heterogéneo, formado por estados historicamente sedimentados e ciosos da sua independência, é o caminho certo para o desastre - e é esse caminho que todos os dias vamos percorrendo.

Mas existe ainda uma segunda consequência negativa desta ideia da má comunicação, que é o aumento dos recursos destinados à propaganda europeia e a transformação, cada vez mais nítida, da comunicação em propaganda barata. Um dos exemplos mais nítidos dessa propaganda é a ideia que se quer fazer passar que a União é muito generosa com os seus recursos, como se esses recursos não fossem fornecidos pelos estados membros.

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