Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Factos e opiniões

10 mai, 2019 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A incapacidade para apresentar números credíveis e consensuais sobre o custo do descongelamento dos salários de professores e outros servidores do Estado tornou o debate numa troca de insultos.

Na querela sobre o pagamento, ou não, do tempo congelado aos professores e a outros profissionais foi impressionante a quantidade de valores diferentes apresentados sobre o custo para as finanças públicas desse pagamento. Os valores divulgados variaram entre 800 milhões de euros e metade disso. O próprio Governo e o PS apresentaram vários números diferentes ao longo do tempo.

A UTAO, Unidade Técnica de Apoio Orçamental, que funciona na Assembleia da República, apresentou esta semana valores muito abaixo dos divulgados por M. Centeno - que logo veio classificar de “totalmente arbitrários” os cálculos da UTAO.

É uma característica nacional discutir não só opiniões como também factos, o que torna infernal e interminável qualquer discussão. Não defendo a ingenuidade de afirmar que todos os factos são meramente objetivos e, por isso, fora de controvérsia. Um acidente rodoviário será relatado de forma não idêntica por duas testemunhas que a ele assistiram – depende do ponto de vista onde cada uma se situava. Os historiadores apresentam descrições frequentemente diversas sobre os factos passados que investigam.

Mas é normalmente possível assentar em alguns factos. Neste assunto, certamente muito complexo, a responsabilidade maior cabia ao Governo. Mas o ministro Centeno foi parco em explicar e justificar os seus cálculos – só quase no fim veio dizer o motivo por que, ao contrário da UTAO, o ministério das Finanças não deduzia as receitas adicionais de impostos das despesas envolvidas no pagamento retroativo de salários congelados.

Ou seja, podia ter-se avançado mais na caracterização dos factos – neste caso, o custo futuro para o Estado daquele pagamento. Assim, assistimos sobretudo a uma desagradável troca de insultos, o que só desprestigiou ainda mais a classe política.

Comentários
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  • Cidadao
    10 mai, 2019 Lisboa 10:24
    Mas a classe politica tem algum prestígio? Quando elaboraram uma Legislação Eleitoral que os perpetua no Poder, sem que os Cidadãos verdadeiramente independentes se possam candidatar à AR ou no mínimo elaborarem eles as listas de deputados à AR, votando por pessoas e não por Partidos? De que "prestígio" está a falar? E no caso dos Professores, nem vou falar o óbvio que é o Centeno-Costa terem mentido com os dentes todos, apoiados pelas redes de comentadores e bloguistas encartados que lançaram a habitual vaga de fundo do contra, que o PS lança sempre mão, nestas ocasiões. Vou apenas dizer que a verdadeira razão da não recuperação do tempo de serviço, está nas notícias, que no meio deste frenesim passaram despercebidas: a necessidade de 1 000 Milhões de Euros extra - a somar aos 5 000 Milhões de euros já orçamentados - para transferir para a Banca, para sustentar à tona, Bancos falidos. Dinheiro que nunca mais vamos ver. E toda a gente encolhe os ombros a isto ...