Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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O prolongamento da crise

08 mai, 2019 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Está afastada a hipótese de demissão do Governo, por causa da eventual aprovação parlamentar de uma lei do pagamento aos professores do tempo congelado. Mas ao PS convém prolongar uma crise que já acabou.

No dia 16 de abril, a Renascença noticiou que “o Governo tem estado a ponderar e tem discutido várias vezes a sua própria demissão caso seja forçado a dar, via Parlamento, uma resposta aos professores”. Mas parece que alguns políticos estavam distraídos. A distração agravou-se na quinta feira passada, 2 do corrente mês, quando na comissão parlamentar de Educação, à noite, deputadas do CDS e do PSD acordaram com o PCP e o BE um documento que previa o pagamento total aos professores do tempo em que esse pagamento esteve congelado.

O CDS e o PSD tinham condicionado a aprovação daquele documento a uma série de requisitos para preservar a consolidação das contas públicas; só que, surpreendentemente, apesar dessas condições terem sido rejeitadas pelos partidos de esquerda e portanto excluídas do documento, as deputadas do PSD e do CDS aprovaram o documento em causa. E foi quase tudo registado pelas televisões…

Naturalmente que António Costa não perdeu a oportunidade para executar aquilo que há semanas vinha a ser discutido no núcleo duro do Governo: o primeiro-ministro ameaçou mesmo com a demissão, no quadro de uma encenação que dramatizou a ameaça.

Por isso os líderes do CDS e do PSD tiveram de recuar. Mas, como ontem aqui escreveu Eunice Lourenço, o comportamento daqueles dois partidos foi “uma manifestação de desconhecimento e descoordenação parlamentar porque, no fundo, (os líderes do PSD e do CDS) vieram dizer que, afinal, aquilo que foi negociado e aprovado na comissão parlamentar de Educação não é bem o que queriam e, em última análise, não aprovam um articulado que os seus deputados aprovaram”.

Mas a troca de insultos continua. E A. Costa esforça-se por prolongar o mais possível uma crise que deixou de ter sentido. É que as reservas do PSD e do CDS serão chumbadas pelo PS, BE e PCP – para desgosto de Mário Nogueira.

A crise não terá sido propriamente artificial – mas o seu prolongamento é mais do que artificial, quando já se sabe que a lei que levaria à ameaçada demissão do Governo não passará. Este prolongamento reforça a evidência de que o “golpe” do primeiro-ministro teve sobretudo a ver com tirar o PS de crescentes dificuldades. Para já, desviou a atenção das eleições europeias, cuja campanha não está a correr bem para os socialistas.

Veremos se a proposta de lei será votada no parlamento na sexta-feira próxima, dia 10, ou se – como gostaria o PS – apenas a 15 deste mês, último dia em que o plenário funciona antes das eleições europeias.

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