Opinião de Luís António Santos
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Julian Assange, preso pelo que escreveu e ajudou a revelar

11 abr, 2019 • Opinião de Luís António Santos • Opinião de Luís António Santos


Daqui em diante quem é que vai escolher quem são os bons e os maus jornalistas? Vão ser os governos? Vão ser os aparelhos judiciais? E com base em que interesses?

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Mantendo as devidas distâncias, a história de Julian Assange, da sua relação com as autoridades e da forma como um número significativo de empresas de média falam do assunto faz lembrar um caso bem mais próximo – o de Rui Pinto.

Em ambos, o objeto das ações é a divulgação de documentos que expõem alegados atos criminosos; em ambos, as autoridades parecem mais empenhadas em silenciar os agentes da divulgação do que em procurar investigar as alegações; em ambos, parte significativa dos média acompanha a narrativa das autoridades sem grande questionamento (no caso do português há quem ainda continue a chamar-lhe ‘o hacker do Benfica’, reduzindo todo o processo a um gesto contra um clube de futebol).

A diferença – substancial – é que Julian Assange é um jornalista. A organização que lidera, a Wikileaks, venceu vários prémios, precisamente em nome do contributo que deu à divulgação de uma série de escândalos envolvendo más práticas ou mesmo crimes. É certo que esta defesa do seu estatuto de jornalista não é pacífica, mas – apropriando-me de uma expressão atribuída a Voltaire – diria que é sempre preferível defender um jornalista com o qual não concordámos do que apoiar o seu silenciamento. E é precisamente disso que se trata aqui. De silenciamento.

A detenção de Assange é feita – já se sabe agora, depois da confirmação da Polícia de Londres – para dar cumprimento a um pedido de extradição dos Estados Unidos, sob acusação de envolvimento em atividades de violação informática com Chelsea Manning (responsável pela divulgação de mais de 700 mil documentos militares norte-americanos e condenada ao abrigo da Lei da Espionagem). Ou seja, o polémico australiano enfrenta, se condenado, uma pena de prisão que pode ir até aos cinco anos por ter colaborado num processo que resultou num trabalho jornalístico rigoroso de cinco grandes e reputadas empresas mundiais e que expôs, com segurança e com sentido da responsabilidade, falhas graves na condução da política externa norte-americana.

Como escrevia George Packer, na revista The Atlantic, “se Assange for julgado pela publicação de material secreto, todos os média enfrentam um risco semelhante”. Daqui em diante quem é que vai escolher quem são os bons e os maus jornalistas? Vão ser os governos? Vão ser os aparelhos judiciais? E com base em que interesses?

A Liberdade de Expressão é um direito fundamental que vive, por estes dias, ameaçado por movimentos de sinal contrário – por um lado, a disseminação de uma quantidade substantiva de conteúdos incorretos ou não verdadeiros e, por outro lado, a pulsão cada vez menos dissimulada de alguns governantes e/ou regimes políticos para controlar a atividade jornalística (em muitos casos usando precisamente como justificação o ´combate às fake news’). São dois movimentos poderosos que formam uma bizarra aliança e cujo objetivo final é a fragilização da Democracia.

Julian Assange é, certamente, um homem cheio de defeitos e a sua polémica atividade precisa de ser acompanhada com prudência e equilíbrio e até denunciada (como aconteceu no caso da alegada associação ao regime de Putin). Mas querer silenciá-lo é tudo menos um ato de Justiça.

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