Opinião de Graça Franco
A+ / A-

Morreu a ama africana dos meninos felizes

21 mar, 2019 • Opinião de Graça Franco


Da velha cidade restará apenas uma espécie de cemitério. Até que as águas desçam e deixem à vista os corpos engolidos pela torrente das águas nem sequer saberemos quantos foram os mortos. A lista de desaparecidos que engorda ao ritmo da voragem da bicharada que desceu à cidade só descerá quando a terra começar a secar.

Os Homens não choram. Os Moçambicanos não são exceção. Mesmo quando lhes morre a mãe terra. Mia Couto leva discretamente a mão ao rosto, uma e outra vez, como se estivesse a desviar o curso de um rio seco, mas nunca desvia os olhos do ecrã por onde fala, via Skype, à RTP. A voz nunca o trai. Só as palavras ficaram tristes. O escritor está de luto. “A criatura que o trouxe ao colo e lhe contou todas as estórias de uma infância feliz” desapareceu.

A Beira não era uma cidade. Não era a segunda cidade do país. Era muito mais. Era tanto, para ele, que os amigos lhe dizem para não ir vê-la. Despedir-se de longe custar-lhe-á menos. Vai seguir o conselho. Não irá. É desnecessária a dor de a poder tocar e a sentir gelada naquele caixão de tábuas soltas, forrado de lama, sozinho, a vaguear entre as chapas de zinco flutuantes. Já está gente demais presente no velório forçado da cidade. Ficaram por lá todos os que não podem fugir.

Seria duro demais despedir-se nesse estado de abandono e perdição da terra que o viu crescer. Mataram-lha. Os rios, a chuva cobarde e aquele ciclone a que deram um nome de terrorista traiçoeiro. O vento levou-lhe, de rajada, a ama que lhe embalara uma “infância feliz”. Os jornais que olham as tragédias com o olhar dos homens titularam apenas que desaparecera “o celeiro de Moçambique”. Mia Couto não nos fala disso. A Beira, conta, “era uma criatura” contadora de estórias. Uma espécie de zeladora dos meninos calcorreadores das suas esquinas. Talvez por isso, não esconde a raiva e o sentimento de impotência com que se confronta, a cada passo, cada vez que tenta fazer chegar algum apoio aos que ali permanecem e fazem parte do espetáculo da decomposição da cidade esventrada, onde 90 por cento dos edifícios colapsaram.

É como se aquela metade do país estivesse a ser vitimas de uma conspiração dos elementos. Agora, desabafa o contador de estórias, transformada em ilha, quando tudo está reduzido a água “nem os barcos conseguem chegar ao cais”. Cada tentativa para ressuscitar a Beira morta dá de caras com “obstáculos inesperados”. Qualquer ajuda parece impossível “de fazer chegar”. Tudo é “incrivelmente difícil”. Não há estradas, nem pontes, só lagos enormes onde os crocodilos se sentem livres. E, no entanto, “falta tudo”. Deixa claro como a morte tomou de assalto a sua terra de “menino feliz”. Como se o homem já nunca mais o pudesse voltar a ser, pelo menos, ali.

As perguntas da jornalista sucedem-se impiedosas. E o escritor vai-se recompondo aos poucos. Aqui, Na Fundação Fernando Couto vamos “seguindo, acompanhando”. Agora vai ser preciso “repensar tudo”. A cidade estava construída num local de confluência dos rios. “Nunca mais poderá voltar a ser ali. Vai ser preciso estudar”. Na despedida, já é o africano resiliente que do nada consegue refazer uma vida toda que sorri.

Nas grandes desgraças (esta submergiu a segunda maior cidade de um país pobre e afetou cinco das dez províncias de Moçambique) as imagens costumam ser a melhor maneira de contar as histórias. Mas, aqui não. De tantos meninos empoleirados em árvores parados contra o tempo que corre contra eles à espera do socorro atrasado pela subida das águas, de tanto arroz que vimos cozer em tachos improvisados, de tantas pessoas buscando nos escombros a coisa nenhuma que sobrou de uma casa (que não se imagina que existiu ali…) as palavras de Mia Couto parecem mais eficazes do que a própria visão repetida da catástrofe. Despertam a consciência embutida que a repetição da visão da tragédia já banalizou.

Da velha cidade restará apenas uma espécie de cemitério. Até que as águas desçam e deixem à vista os corpos engolidos pela torrente das águas nem sequer saberemos quantos foram os mortos. A lista de desaparecidos que engorda ao ritmo da voragem da bicharada que desceu à cidade só descerá quando a terra começar a secar.

Toda a ajuda não chegará para as necessidades, todo o material por pouco que seja será gasto para repor uma aparência de abrigo no pântano dos refugiados do vento. E as crianças? Como voltarão a estudar nas escolas que foram varridas do mapa?

Quem ainda não percebeu o que Francisco nos quer dizer quando fala de cuidar da casa comum, pode fixar-se nas imagens, uma e outra vez. Pode pensar na força do vento que faz com que os telhados se soltem das casas e naveguem inteirinhos ao seu lado. Pouco podemos fazer pelos meninos órfãos da Beira mas talvez ainda consigamos evitar a orfandade de toda uma nova geração.

Na última Sexta-feira perderam-se 274 mil hectares de cultura, mais de cem mil pessoas ficaram em risco e nos três países afetados mais de um milhão e 500 mil pessoas perderam os respetivos bens. Neste momento há ainda 10 mil pessoas ainda em risco. À espreita estão pelo menos quatro pragas pré-anunciadas: a cólera, a malária , a insegurança e as pilhagens.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Maria Sílvia Rodrigues de Moura
    22 mar, 2019 Bragaomk 16:36
    Bela descrição.