Opinião de Luís Cabral
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​AlphaZero

15 fev, 2019 • Opinião de Luís Cabral


Um dos acontecimentos mais importantes de que se fala relativamente pouco é o feito extraordinário do computador AlphaZero da Google.

Os últimos resultados, anunciados em Dezembro na revista Science, são no mínimo espectaculares. Os criadores do AlphaZero 'ensinaram' ao computador as regras do Xadrez.

É relativamente fácil explicar estas regras: a informação em questão cabe numa página A4. Por exemplo, o Rei pode andar uma casa em qualquer sentido; a Rainha qualquer número de casas em qualquer sentido; o Bispo apenas em diagonal; etc.

Tendo ensinado as regras do Xadrez, incluindo o objectivo (cheque mate ao adversário), o AlphaZero entrou num processo do que se chama aprendizagem não supervisionada. Essencialmente, o que o computador faz é jogar muitos jogos consigo próprio; e, vendo o resultado de cada partida, aprende quais são as melhores estratégias.

Em certo sentido, esta é também a forma como os humanos aprendem:

tentativa após tentativa, aprendemos o que funciona e o que não funciona. E tentamos memorizar (o melhor possível) o que deu resultado e o que não deu. A diferença é que o AlphaZero o faz muito depressa.

Muito mais depressa.

Em poucas horas, começando do zero (literalmente), o AlphaZero já ganhava aos melhores jogadores humanos. Passados três dias, já ganhava ao StockFish, o computador de Xadrez mais poderoso do mundo.

Dizer que um computador ganha a um humano não tem nada de novo: já em

1997 o DeepBlue da IBM venceu Gary Kasparov, então o melhor jogador do mundo. O que há de novo é que o DeepBlue, tal como o StockFish, resultaram de anos e anos de aperfeiçoamento e aprendizagem

supervisionada: os programadores foram introduzindo milhares e milhares de jogos jogados por humanos, de forma que o computador aprenda o que funciona e o que não funciona. O que há de novo com o AlphaZero é que toda esta aprendizagem foi não supervisionada.

Não é possível dizer com certeza o que isto implicará para o futuro da inteligência artificial, mas não tenho dúvidas de que o dia 8 de Dezembro de 2018 ficará para a história como um momento crítico na evolução da inteligência artificial.

Comentários
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  • João Lopes
    21 fev, 2019 Viseu 20:10
    Artigo interessante!