Opinião de João Ferreira do Amaral
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​Comemorações envergonhadas

11 jan, 2019 • Opinião de João Ferreira do Amaral


O euro fez 20 anos. As comemorações de tão assinalável data foram, contudo, muito menos esfusiantes do que se poderia pensar.

Quase se diria que foram envergonhadas e restritas ao forçado entusiasmo das instâncias burocráticas europeias.

Mais do que isso: há hoje um coro alargado de vozes a exigir uma reforma profunda da zona euro. Surpreendentemente, uma boa parte dessas vozes tem a mesma origem das que há vinte 20 endeusaram o euro como a nova base de um risonho destino europeu. Afinal, o euro não era tão bom assim…

O problema está em que as reformas que se preconizam, quer para as condicionantes da política económica e orçamental quer para a união bancária são de sinal contrário. Os países do sul (vamos chamar assim por comodidade aos países que mais perderam com o euro, onde evidentemente Portugal está incluído) pretendem uma flexibilização da actuação da zona euro que lhes permita retomar uma trajectória de convergência que perderam com a realização da moeda única. Os países ganhadores (Alemanha e seus acólitos) querem uma reforma que, pelo contrário, reforce a rigidez e o poder alemão e os proteja do que dizem ser o esbanjamento dos países do sul.

Note-se que o resultado final destas posições opostas originará sempre ganhadores e perdedores, uma vez que um resultado intermédio não interessa a ninguém. Não é difícil de prever quem continuará a ganhar.

É por isso que fico completamente estarrecido pela ingenuidade (mas será mesmo ingenuidade?) daqueles que dizem ser o euro um factor de união na Europa. Bem pelo contrário: é certamente o factor mais divisionista entre os países que formam a zona euro. Mais ainda que a questão das migrações, a qual tem muito a ver com a ideologia dos governos, que vai variando, enquanto o conflito na zona euro tem a ver com causas estruturais muito profundas que se perpetuam no tempo.

Há por isso, infelizmente todas as razões para crer que o euro continuará, como até aqui, a ser um desastre para a Europa e uma catástrofe para Portugal.

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