Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Porque não trabalhar menos?

05 jan, 2019 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A tendência para a redução do tempo de trabalho abrandou nos últimos anos, sobretudo nos EUA e no Reino Unido.

Um dos enigmas do progresso económico desde a II Guerra Mundial está no tempo, ainda relativamente grande, que a maioria das pessoas passa a trabalhar. Com certeza que hoje se trabalha muito menos horas do que na indústria nascente do séc. XIX, em grande parte graças às lutas sindicais então travadas. Nessa altura não havia limites para o tempo de trabalho de homens, mulheres e crianças. O trabalho semanal nas fábricas chegava a atingir 60 a 70 horas.

A adoção em vários países do sufrágio universal (antes votavam só os ricos e os remediados) após a I Guerra Mundial também contribuiu para o horário das 8 horas diárias. Em 1919 uma primeira convenção da Organização Internacional de Trabalho (OIT) declarava que a jornada laboral não devia ultrapassar 8 horas por dia e 48 horas por semana. Em 1935 a OIT adotou uma nova convenção, definindo o limite de horas semanais em 40. Muitos países, na prática, não subscreveram essas indicações.

Mas há 70 anos o provavelmente mais importante economista do séc. XX, J. M. Keynes, previu que a semana de trabalho dos seus netos seria de apenas três dias. Ora a previsão falhou: hoje, a ainda não confirmada proposta do partido trabalhista britânico aponta para uma semana de quatro dias de trabalho. E muita gente no mundo trabalha mais de 8 horas diárias e de 40 semanais.

Tempo de trabalho e produtividade

É um facto que onde houve crescimento económico e melhoria de rendimentos o horário de trabalho em geral diminuiu. Por outro lado, alguns empresários perceberam ser um erro um excessivo tempo laboral: menos horas de trabalho podem levar a maior produtividade; ou seja, menos trabalho, melhor trabalho.

Na Holanda há mais pessoas a trabalhar a tempo parcial do que a tempo completo. E a maioria das que trabalham em “part-time” não o fazem por não encontrarem alternativa – mas porque querem que seja assim.

Este problema da vontade do trabalhador é importante. A verdade é que a esmagadora maioria dos trabalhadores não tem possibilidades de escolher o seu horário. Isto, apesar de ter aumentado o teletrabalho, que aliás não agrada a todos a quem é oferecido – o convívio com colegas na empresa é psicologicamente importante para muita gente.

O papel das novas tecnologias

Quem está em regime de autoemprego poderá ter maiores possibilidades de escolha no seu tempo laboral. Como, na era pré-industrial, tinham os artesãos, sobretudo os mais qualificados. Mas se o trabalhador independente precisa, para sobreviver, do dinheiro que lhe pagam pelo seu trabalho, o leque de escolhas quanto ao tempo laboral é naturalmente pequeno.

Deram-se passos, ainda limitados, na conciliação entre o trabalho e a família, com horários mais flexíveis, sobretudo para as trabalhadoras que têm filhos. A Dinamarca tem um razoável equilíbrio nesta área: só 2% dos dinamarqueses trabalham longas horas; a média na OCDE é de 13% da força laboral.

Por outro lado, a internet, os telemóveis, etc., se permitem uma certa flexibilidade no horário de trabalho, também frequentemente têm o efeito contrário: o trabalho persegue o trabalhador quase 24 horas por dia, na empresa e fora dela, através de telefonemas, mensagens (SMS), etc. Por isso já muitas convenções coletivas limitam essa intromissão do trabalho fora do horário.

Os obcecados pela profissão

Notava recentemente o semanário “The Economist” que em França e na Alemanha o tempo de trabalho continua a descer, embora mais lentamente do que no passado. Já nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha não só essa redução foi menor como, nos últimos anos, se registou uma inversão: o tempo de trabalho voltou a aumentar, embora ligeiramente.

Como se explica esta inversão? Não se pode atribuir a diferença entre, por exemplo, a França e os EUA, à diversidade de culturas. Nos países do Sul da Europa trabalha-se em geral mais tempo do que nos países do Norte, contra o que muita gente pensa.

A subida no tempo de trabalho acontece sobretudo naqueles que ganham mais e estão envolvidos numa feroz concorrência para subirem na escala profissional. Escreve o “Economist”: “aqueles que optam por maior tempo de lazer arriscam-se a ser marginalizados, deixando as decisões aos obcecados pelo trabalho, que ascendem a lugares de poder empresarial”.

Outro fator do abrandamento da tendência de diminuição do tempo de trabalho é a perda de poder dos sindicatos, que no passado lideraram a luta por menos horas laborais.

Mas o aspeto mais preocupante, além do desemprego, naturalmente, é o facto de muitos valorizarem de tal maneira o sucesso profissional que nada mais lhes interessa, desde a família à cultura.

Comentários
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  • Anónimo
    06 jan, 2019 11:16
    Porque Portugal é um país de patrões burros e incompetentes e de trabalhadores que comem e calam. É tanto que exigem para dar emprego que nunca vi um patrão em condições de ser empregado...