Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

Uma sociedade de filhos únicos é uma sociedade de bullying

28 dez, 2018 • Opinião de Henrique Raposo


O melhor do mundo não é a natureza alegadamente boa das crianças, mas sim a persistência dos pais que educam as crianças para o amor. E, se o amor é um trabalho, o amor entre irmãos é uma carga de trabalhos.

Quando dois ou mais irmãos trocam abraços ou beijos na rua ou no parque, julgo que a maioria das pessoas tende a ver naqueles gestos uma manifestação de afecto natural. Ai, que amores! As crianças são mesmo o melhor do mundo! É um erro. Se aqueles irmãos ou irmãs estão a trocar afectos como quem troca cromos da Panini, então isso quer dizer que os pais trabalharam muitíssimo. O melhor do mundo não é a natureza alegadamente boa das crianças, mas sim a persistência dos pais que educam as crianças para o amor. E, se o amor é um trabalho, o amor entre irmãos é uma carga de trabalhos.

Sim, o amor entre irmãos é um trabalho, uma educação, uma escolha racional do livre arbítrio. No livro que nos deu o livre arbítrio e a responsabilidade individual, a Bíblia, nunca deixo de me surpreender com a centralidade do amor e desamor entre irmãos. De José no Egipto à parábola do filho pródigo, a Bíblia diz-nos que o amor entre irmãos não é algo fluído e orgânico como o desabrochar de uma flor, é algo mecânico, escolhido e trabalhado como as rodas e roldanas de um relógio. Amar um irmão até se pode transformar numa segunda natureza, sim, mas a construção desse segundo instinto, camada após camada, leva anos ou décadas. A bondade é como aquelas camadas de tinta velha dos ateliers dos pintores, ou como as camadas de serradura numa carpintaria, camada após camada de tempo, camada após camada de tentativa e erro até chegarmos ao amor pelo nosso maior rival, o irmão ou irmã.

É por isso que fico assustado com esta sociedade de filhos únicos que criámos nas últimas duas décadas e que continuamos a criar. É que uma sociedade de filhos únicos é uma sociedade de intolerância. Ao analisar a intolerância e clima de censura e autocensura das universidades americanas, o psicólogo social Jonathan Haidt (The Coddling of the American Mind) vê a causa do problema num ponto ainda mais profundo do que o mero politicamente correcto. Os jovens universitários de hoje, diz Haidt, já foram criados num clima hiper-protegido, sempre vigiado por adultos, muitas vezes sem irmãos e sem brincadeiras de rua. Haidt chama-lhe a “geração floco de neve”, uma geração que é incapaz de dialogar e trocar ideias porque vê uma ofensa no mais leve desacordo. Tornaram-se jovens adultos intolerantes, porque foram crianças solitárias que não aprenderam a socializar, porque não tiveram a grande educação moral: ter irmãos. Ter irmãos força à negociação permanente; a tal coabitação com o “outro” faz parte do próprio ar que se respira. Sem surpresa, a nossa sociedade de filhos únicos tem sido uma sociedade sociedade de bullying na escola e de intolerância na vida adulta.

Comentários
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  • João Lopes
    01 jan, 2019 Viseu 18:46
    Excelente análise de Henrique Raposo.
  • tito
    29 dez, 2018 lisboa 16:06
    Discordo plenamente o filho único hoje em dia vai para o berçário,infantário,estudos básicos e eventualmente universidade.Em todos estes locais tem que interagir com a comunidade, com professores e pares.A casa é o seu castelo onde é educado de acordo com formação dos pais.O bulling surge por consentimentos das autoridades,praxes por ex,má vigilância escolas ,rua e casais totais ou monoparentais problemáticos.O bullig é tb o resultado de uma educação e permissividade intolerável, complexa em que ser filho único não encaixa.
  • Vera
    28 dez, 2018 Palmela 19:11
    É verdade! os filhos/filhas, únicos são uma carga de trabalhos! porque não aprenderam a repartir! aprenderam a 'ter tudo à mão de semear' semeado pelos pais, o que é mais que evidente! Eu acho que um casal deve ter dois filhos e serem criados juntos, ou então vale mais não terem nenhum. Eu disse criados juntos e repito: criados juntos, porque se o pai pode comprar algo para cada um, tudo bem! se não pode, vão ter que repartir ou saberem olhar nos olhos um do outro e dizer (ex: o computador) agora é a tua vez, depois pertence-me! ou agora é a tua vez, porque eu já me servi do computador! e como isso, é tudo menos o vestuário! agora deu-me vontade de rir porque conheci um casal que só tinha um filho e o casaco de cabedal, servia para aquele que fosse o primeiro a sair de casa! Aí está, se fossem dois filhos, nunca os pais tinham oportunidade de vestir o casaco! porque ora vestia um, ora vestia o outro, os pais tinham que optar por uma gabardina por exemplo! mas acho que se sentiam felizes, por verem os filhos a viverem com amizade! As pessoas devem ter o suficiente para poderem viver! é assim: quando é muito pouco, é uma tragédia! ninguém se entende! quando é pouco aprende-se a repartir! e quando é demais, dá uma confusão danada, até se zangam todos! E como eu já disse, um casal deve ter dois filhos, ou nenhum! O filho único é sempre o esperto da turma, depois cria inimizades com os colegas! não tem amigos! ao passo que aquele que tem um ou mais irmãos, dá-se bem com todos...
  • Ana Pinto Correia
    28 dez, 2018 Maia 11:36
    Muito bem pensado. E muito bem escrito. Como sempre. :)