Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

Estou na telefonia

21 dez, 2018 • Opinião de Henrique Raposo


O Natal é o tempo da gratidão. É tempo de agradecer à Renascença. Agradeço pela companhia ao longo de quase quarenta anos de história familiar. Agradeço pela confiança.

É uma das minhas memórias mais antigas. Se a consciência for uma catedral, esta memória é um dos arcos ogivais: às seis da manhã, a minha mãe leva-me embrulhado num cobertor e deixava-me na casa da minha madrinha. Ela seguia depois para a fábrica a pé, de autocarro ou de boleia; ia até Pirescoxe e descia até à zona da Covina onde trabalhava numa fábrica de componentes de telefone. No cheiro químico e no zumbido mecânico, a minha zona era uma pequena China. Durante o curto caminho, lembro-me do balouçar confuso do colo, porque o pavimento era ainda de terra e pedra, a minha mãe tinha de se desviar da lama e das poças; lembro-me do frio no escuro, das pequenas farripas de lã que decoravam os quatro cantos daquele cobertor provavelmente feito pela minha avó, lembro-me da luz que vinha da casa da tia ao longe, a única luz visível num bairro ainda clandestino com um ou dois postes de iluminação. Eu ficava embrulhado no quarto dos meus primos, um já trabalhava. Era-se homem muito cedo naquele tempo. Pouco depois, a tia também saía para apanhar o autocarro a caminho de Lisboa onde servia há décadas na mesma casa. A operária e a criada.

Enquanto a tia, o tio, os primos e os avós comiam e preparavam marmitas, só ouvia um som: a Rádio Renascença, que era derramada na casa a partir do rádio da cozinha. Às vezes, havia stereo quando alguém deixava ligado o pequeno rádio da casa de banho. Não me lembro de locutores nem de programas, mas sei que era a Renascença. Numa família de alentejanos silenciosos, a rádio era o único som humano, o resto era ruído inerte, o choque das chávenas nos pires, o pão a saltar na torradeira, o pedal da máquina de costura da avó já a trabalhar no anexo do quintal. Aquele som, o da rádio, unia-nos, ligava-nos, ligava-nos porque comentávamos o que ouvíamos com olhares de repulsa ou apoio, ligava-nos ao país que estava lá fora, um país mergulhado numa crise e à procura da esperança europeia. Pouco depois, toda a gente saía. Só ficava a avó e a Renascença. Quando acabava de coser as saias das vizinhas, a avó fazia lume no fogão a lenha já a pensar no almoço e punha lenha no forno onde fazíamos pão à moda antiga (que hoje se vende nas padarias finas de Lisboa).

Daqui a quarenta anos, quando as minhas filhas fizerem um exercício de memória semelhante, a Rádio Renascença voltará a estar presente, e não necessariamente por se lembrarem que o pai em tempos falou ali. Quando elas acordam, o rádio da cozinha já está ligado. Às vezes, não ouvimos aquilo que a Carla, o Miguel, o Renato, o Pedro, a Sandra, o Paulo, o Carlos, o Rui, a Fátima, a Anabela, o João, entre outros, estão a dizer. Àquela hora, no meio das birras, não é isso que interessa; o que interessa é que a rádio é a lareira possível, faz companhia. À tarde, quando chegamos da escola, por volta das 18h, ligo o rádio. Os banhos, o vestir o pijama, as conversas, o meu tosto cozinhar, o dar o jantar, os trabalhos, os desabafos, enfim, toda a relação entre as minhas filhas e o seu pai é feito com a Renascença ao fundo, qual lareira hertziana. Elas até dizem a brincar que o pai “vê” o Benfica através da Bola Branca.

O Natal é o tempo da gratidão. É tempo de agradecer à Renascença. Agradeço pela companhia ao longo de quase quarenta anos de história familiar. Agradeço pela confiança. Quando o Pedro e a Graça me convidaram para fazer comentário em directo, confesso que tremi. Sou um tímido radical. Às vezes, dizem-me que escrevo como se estivesse a falar. É normal: escrevo o que não consigo dizer; escrever é uma forma de vencer a minha natureza. Estar em directo custa-me, fico sem ar, é como entrar em apneia agarrado a uma corda que me leva para o fundo do mar. Além disso, tenho a cabeça treinada para escrever, que é o exacto oposto de falar. Aceitei, porque era um desafio, porque sou profissional. Mas, sim, estava com medo, estava com receio de não conseguir fazer apneia duas vezes por semana. Julgo, porém, que as coisas têm corrido bem. O meu medo era talvez infundado. Desde o início, nunca senti a minha timidez no meio de todas as pessoas que encontro aqui logo na segunda-feira de manhã. Senti-me sempre à-vontade, o que é raro. Devo por isso um obrigado especial à Carla Rocha, ao Miguel Coelho e ao Jacinto Lucas Pires, as três pessoas que partilham comigo o aquário, que, afinal de contas, não exige apneia. Ou, se calhar, tenho guelras; guelras talvez criadas naqueles anos em que, ainda embrulhado num cobertor áspero, ouvia a Rádio Renascença na telefonia da minha tia. Era assim que se dizia: telefonia.

Comentários
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  • Manuela
    23 dez, 2018 Lx 00:01
    A minha história é mais ou menos parecida! Dá muito jeito ouvir a rádio de manhã enquanto nos vestimos e enquanto tomamos o pequeno almoço, porque ficamos logo a saber se levamos o chapéu de chuva, se está frio, ou vento, se faz falta o cachecol, como está o trânsito e ouvimos as músicas, que nos fazem perder o sono, que ainda está em nós, para irmos mais espertos, para a escola ou trabalhar ou até mesmo depois, quando já estamos com os pés nos chinelos. Eu sempre me lembro de ouvir a Renascença, sempre me acompanhou pela telefonia, pelo rádio relógio, pelo rádio de pilhas e por fim pelas emissões Online (dá jeito, para sabermos os nomes das canções que estão a tocar, e até para conhecermos aqueles que estão do lado de lá, a 'darem-nos música'. O meu marido quando se zanga, costuma dizer: - Estás-me a dar música? e eu, nem mais! elevo o som para não o ouvir! (também dá muito jeito)! A Renascença é a minha melhor amiga. Obrigada Renascença, FELIZ NATAL e que o Novo Ano seja bastante PRÓSPERO! são os meus votos. Manuela Silva. Ah! a minha prima Vera Também agradece (esta ouve menos música, gosta mais de comentar os textos e as notícias). FELIZ NATAL, Henrique Raposo! espero que no Novo Ano 2019, continue a escrever as suas crónicas... (também dão muito jeito)
  • Domingos Simões
    22 dez, 2018 Caldas da Rainha 12:51
    Fico grato a Henrique Raposo por mais esta partilha escrita, sobra a RR falada e musicada. Estendo a gratidão à própria Rádio e a Todos os que a trazem à nossa casa. A todos um Bom Natal, que seja um Bom Natal :) :) :) :) :) :) :) :) :) :) :)
  • Sílvia Moura
    21 dez, 2018 Braga 14:38
    Lindo artigo, também a Rádio Renascença sempre me acompanhou, de tal maneira quer tenho um rádio na cozinha, na casa de banho, no meu quarto e no salão. Por onde passo vou ligando os rádios para não perder "pitada". Termino desejando que continue com os seus comentários, os quais gosto imenso de ouvir. Festas Felizes.
  • José Ribeiro
    21 dez, 2018 S.Pedro Estoril 12:39
    Caríssimo: tal como aconteceu e acontece consigo, a RR Emissora Católica Portuguesa, acompanha-me ao longo dos meus 75 anos de vida e jamais esquecerei que a rubrica "Meditando" que há cerca de 70 anos era transmitida às 20h00m tendo como fundo musical uma célebre área de "Bach", significava para mim e minha irmã que chegara a hora de dormir. Obrigado pelo texto e as aludidas intervenções
  • João Lopes
    21 dez, 2018 Viseu 09:12
    Excelente artigo.