Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​Pausa na guerra comercial

03 dez, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O presidente chinês é contra o protecionismo comercial de Trump e defende o multilateralismo. Mas internamente os chineses são hoje menos livres.

O presidente da China, Xi Jinping, visita Portugal no regresso da cimeira do G20 na Argentina. Havia esperanças de que Trump e Xi Jinping, aproveitando esse encontro internacional, suspendessem a guerra comercial. Não aconteceu, mas pelo menos, como nota a BBC, foi suspensa a escalada dessa guerra.

No próximo dia 1 de janeiro não se irá concretizar a subida para 25% dos direitos alfandegários nas trocas comerciais entre os dois países. Haverá uma pausa de 90 dias, para negociar o fim da guerra comercial. A China prometeu aumentar entretanto as suas compras de bens americanos. É uma meia vitória para Xi Jinping.

A economia chinesa já não cresce a taxas de dois dígitos, mas ao ritmo apreciável de 6 a 7% ao ano. É a única potência no mundo que poderá, a médio prazo, ombrear com os Estados Unidos.

Xi Jinping tem-se mostrado crítico do protecionismo comercial de Trump e um defensor do multilateralismo. Mas o poder deste presidente vitalício da China é enorme – depois de Mao, ninguém teve tanta força política naquele país.

Contra o que se poderia esperar, o aumento fulgurante da riqueza da China não levou os chineses ricos ou perto disso a reivindicarem mais liberdade cívica e política. Com Xi Jinping as liberdades recuaram na China. O Partido Comunista Chinês apertou o seu controle sobre a sociedade.

Também a economia se ressente desse controle. As empresas estatais são favorecidas, desde logo pelo crédito dos bancos estatais. E não é fácil ser investidor estrangeiro em território chinês. Estas dificuldades, assim como o “roubo” de tecnologia americana pelos chineses, estarão em cima da mesa das negociações nos próximos meses.

Portugal está há décadas descapitalizado, situação que se agudizou com o programa de resgate que trouxe a “troika” até nós. Por isso o investimento chinês em Portugal foi em geral bem vindo, apesar das suspeitas quanto às prioridades de algumas grandes empresas chinesas: ganhos económicos ou vantagens políticas? É que várias dessas empresas são controladas pelo governo de Pequim.

O capital chinês domina hoje empresas em sectores estratégicos em Portugal – como a EDP, a REN, o BCP (a Fosun é acionista minoritário), unidades na área dos seguros e na da saúde, etc. O “Jornal Económico” calcula em cerca de 50 mil milhões de dólares o valor global do investimento chinês realizado até hoje em Portugal. Os chineses controlam quase 9% do capital das empresas da bolsa portuguesa. Em proporção do PIB, é o maior investimento realizado pela China na Europa, a seguir à Finlândia. E poderá haver interesse chinês no porto de Sines e noutras infraestruturas.

Será sensato aproveitar as oportunidades que se abrem a Portugal, mas convém evitar deslumbramentos face ao gigante chinês. Importa ter cuidado, dada a diferença de poder entre as duas partes.

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  • Bonifácio
    03 dez, 2018 lisboa 16:15
    Perante um sistema comunista que defende os seus interesse com globalização e,multilateralismo em prejuízo do mundo Ocidental não comunista e outros países é natural que alguém esclarecido seja protecionista e anti globalização etc.EUA estão a lutar pela sua liderança contra tudo e todos que parecem querer ser comunistas .Os interesses instalados atacam EUA e alguns americanos não veem que abdicar de negociar alterar todos os tratados que o prejudicam inclusive ONU é o caminho.A ONU tal com está vai-lhe suceder como á LIGA das NAÇOES é substituída pois defnde medidas fraturantes que não são reconhecidas pelos atuais detentores dos maiores poderes mundiais,fala para o DESERTO .