Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Humanizar o capitalismo

24 nov, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Com o colapso do comunismo, a economia de mercado recuou socialmente. Daí que a Doutrina Social da Igreja seja cada vez mais necessária.

"Negócios como uma vocação nobre" é o tema do congresso mundial da UNIAPAC – União Internacional Cristã de Dirigentes de Empresa, que decorre na Universidade Católica, em Lisboa.

Há quem julgue o capitalismo irreformável – será sempre um regime injusto, dizem. E também é verdade que a Igreja Católica acordou tarde para o que se chamou a “questão social”. A encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, surgiu em 1891, quase um século depois de a revolução industrial ter trazido consigo formas dramáticas de exploração dos operários.

Ao longo do séc. XX os trabalhadores foram conquistando direitos, ao mesmo tempo que o capitalismo industrial melhorava o nível de vida de grande parte deles, sobretudo nos países desenvolvidos. Mas de há cerca de quarenta anos para cá a humanização do capitalismo passou a recuar.

O colapso do chamado “socialismo real” tem alguma coisa a ver com esse recuo. Não porque o comunismo soviético fosse um paraíso – longe disso. Mas havia quem tivesse essa ilusão. E a ameaça comunista levou o capitalismo a tomar algumas medidas de carácter social, para evitar revoluções.

Essa ameaça desapareceu. Os anticapitalistas deixaram de ter uma alternativa real (embora de facto péssima) à economia de mercado, o que reduz muitos deles ao mero protesto. São agora menos credíveis.

Doutrina Social da Igreja

O colapso do comunismo não tornou ideais a economia e a sociedade capitalistas. O Papa João Paulo II, um adversário do comunismo, logo após a queda do muro de Berlim avisou que havia muito a corrigir no capitalismo.

As críticas do Papa Francisco à “economia que mata” traduzem a Doutrina Social da Igreja, que se foi enriquecendo ao longo das últimas décadas. Só que não faltam católicos que encaram essa Doutrina como mera declaração de boas intenções, ignorando-a na prática.

Ora, no campo social, a Igreja Católica é, desde há décadas, verdadeiramente pioneira. Por exemplo, no apelo de sucessivos Papas a enquadrar politicamente a globalização, reforçando o direito internacional e as organizações multilaterais, em especial no setor financeiro. E os antecessores do Papa Francisco sublinharam inúmeras vezes que o mercado, sendo um útil instrumento de criação de riqueza, tem limites.

Um dos participantes no acima referido congresso da UNIAPAC, Rajendra Sisodia, fundador do movimento “Capitalismo consciente”, entrevistado pelo jornalista João Carlos Malta para a Renascença, considera que a maximização do lucro não pode ser o objetivo único nem o principal fim da atividade empresarial. “Precisamos de dinheiro para viver, mas não é a razão para vivermos”, afirma R. Sisodia.

Interrogado por J. C. Malta sobre se essa posição não seria idealismo, R. Sisodia responde que as 72 empresas que adotaram pelo mundo o “capitalismo consciente” são mais bem-sucedidas do que a média das empresas da mesma área. E explica: “o capitalismo consciente é fazer negócios tentando alcançar efeitos emocionais, financeiros, culturais e sociais positivos”.

“Vale tudo”

Por outro lado, a sensação de vitória sobre o comunismo levou muitos gestores, sobretudo na área financeira, a uma atitude de “vale tudo” para ganhar dinheiro. Daí a irresponsabilidade ética que culminou na crise financeira global desencadeada há dez anos e que tornou o capitalismo socialmente menos aceitável.

E antes disso registaram-se falências escandalosas, como a da americana Enron em 2001. Ou, mais recentemente, a atuação criminosa da Cambridge Analytica, que interferiu através da net na votação do Brexit e nas eleições em vários países.

O atual caso de Carlos Ghosn, CEO da Renault e presidente da Mitsubishi e da Nissan, e agora detido para averiguações, também não prestigia o capitalismo. Este gestor brasileiro tornou-se um ídolo internacional pela forma como recuperou aquelas empresas do setor automóvel. Por isso era pago a peso de ouro.

Como se compreende, então, que existam fortes indícios de que Carlos Ghosn tenha fugido aos impostos, escondendo cerca de 40 milhões de euros? A confirmar-se, trata-se de uma séria falha ética e social – além de criminal. E denota uma certa irracionalidade, não tem sentido.

O capitalismo de hoje, ao contrário do capitalismo industrial, tende a acentuar as desigualdades de rendimentos. O que agrava injustiças sociais e até trava o crescimento económico – pois a minoria de super-ricos não consome mais com um aumento dos seus rendimentos, ao contrário do que acontece com os que não são ricos.

As empresas mais poderosas do nosso tempo são as tecnológicas. Os seus enormes ganhos permitem-lhes comprar futuros concorrentes – as “startups” – o que diminui a competição no mercado, prejudicando os consumidores. E multiplicam-se os escândalos, nomeadamente no Facebook, exigindo uma regulação que ainda não se percebe como será concretizada.

Outras tendências recentes são preocupantes, como a desvalorização do trabalho (em parte ligada a uma perda de relevância dos sindicatos, que ainda não se adaptaram à economia pós-industrial) ou o forte agravamento das disparidades de riqueza no interior dos países, ou, ainda, a diminuição da concorrência nos mercados, dada a concentração das empresas que os dominam.

Sobre problemas como estes os gestores e empresários cristãos têm uma palavra a dizer – e a pôr em prática.

Comentários
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  • arm
    01 dez, 2018 Sª da Hora 22:14
    Tem de haver uma solução, prática, racional, para o bem estar, social e humano, principalmente para os que se encontra no limite extremo da pobreza. Isso tem de ser da responsabilidade das maiores empresas. Localmente, cada uma delas, tem que prestar contas, do que faz, para minorar as dificuldades dos mais desprotegidos. Já.