Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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A travagem no consumo

20 nov, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Uma economia a crescer com base no consumo privado não pode sustentar esse crescimento por muito tempo. Como se vê em Portugal.

A finalidade última da atividade económica é o consumo das pessoas. Mas, como é óbvio, um país não pode gastar todos os seus recursos no consumo imediato: tem de dispor de meios para a manutenção dos equipamentos existentes e para investir em projetos que aumentem a produção - permitindo um maior consumo no futuro. Ou seja, é preciso adiar algum consumo para garantir um futuro melhor.

Esse adiamento é tão mais necessário entre nós quanto a baixa natalidade e o alongamento da esperança de vida - numa palavra, o envelhecimento da população - aconselham a que os jovens acautelem a sua reforma no fim da vida ativa. Se não pouparem agora, arriscam-se a vir a depender de uma pensão de reforma pior do que aquelas recebidas pelos seus pais e avós. Por isso, é preocupante o presente nível baixíssimo da poupança das famílias em Portugal.

No segundo trimestre deste ano, o consumo das famílias voltou ao nível anterior à crise decorrente do resgate ao nosso país, a partir de 2011. Entre esse ano e 2017, o endividamento das famílias baixou de 166 mil milhões de euros para 142 mil milhões. Recentemente, o consumo das famílias voltou-se sobretudo para bens duradouros - automóveis, em primeiro lugar. As vendas de carros atingiram um máximo de 17 anos no segundo trimestre de 2108.

Boa parte destas compras foi realizada a crédito. Se abrandaram os empréstimos hipotecários para compra de casa, em agosto passado o crédito bancário ao consumo atingiu o valor mais alto desde que o Banco de Portugal iniciou esta informação estatística (2003). A Deco tem noticiado uma intensificação de casos de famílias estranguladas financeiramente por não conseguirem pagar o que devem. Isto, apesar de reiterados avisos do Banco de Portugal aos bancos para que sejam responsáveis na concessão de crédito.

Mas talvez as coisas se alterem em breve. O Banco de Portugal anunciou, há dias, uma travagem no consumo das famílias. O consumo privado está a aumentar, mas ao ritmo mais moderado desde 2013. A desaceleração do consumo, em particular quanto à euforia dos meses anteriores a outubro, ditou, até, o abrandamento do crescimento do PIB no terceiro trimestre do corrente ano.

É negativo? É inevitável: uma economia a crescer com base no consumo privado não pode sustentar esse crescimento por muito tempo. Pena é que o investimento e as exportações não consigam boas taxas de crescimento. Então o crescimento económico seria bem mais saudável.

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