Opinião de Graça Franco
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O "nosso" General partiu

19 nov, 2018 • Opinião de Graça Franco


Homem de uma simplicidade natural e sem bravatas, foi fazendo caminho discreto no pós 25 de novembro, trabalhando em contínuo para a consolidação da Democracia, que sabia ser tão frágil quanto ele a queria forte.

Os militares nunca são surpreendidos pela morte. Só os civis se espantam e lamentam: por mais velha que chegue, não cansam de a atrasar. Os militares não. São treinados cedo a prevenir o encontro. Tornam-no tão banal e inevitável quanto previsto. Quando a morte chega o plano passa a ordem, seja de um soldado ou general. Basta executar os procedimentos previstos e prepararem-se para qualquer imprevisto. São Militares. Mesmo assim, o General Loureiro dos Santos soube, na sua singular humildade, fintá-los a todos: o homem era grande demais para a morte “prevista” chegar para celebrar a sua vida.

Os que fizeram a guerra, com o General Loureiro dos Santos, que agora nos deixou, encontraram-se com a morte tantas vezes, conheceram-lhe tão bem o ritmo da passada, viram-na tantas vezes sair-lhes ao encontro, roubar-lhe os companheiros, acobardada ao chegar pela calada da noite, fingindo-se uma visita inesperada surgisse ela em Angola ou andasse de ronda em Cabo Verde … Conheceram-na tão bem que ficaram incapazes de chorar, mesmo já velhos, quando a sentem de novo por perto. Talvez por isso, esta segunda-feira, em Carnaxide, viam-se homens de todas as idades, em sentido, recatados, contidos, misturados entre a família, o povo e os jornalistas. Derrotados pela morte, não vencidos. E mesmo muitos que foram não pareciam demais.

Talvez seja por terem dormido e acordado com a morte tantas vezes que os “jovens” militares de abril viveram a vida com a intensidade de quem tem pouco tempo para deixar a obra feita e garantir que a herança legada não seja nem desvirtuada, nem esquecida, pelos concidadãos. São raros os que se limitaram a passar o testemunho aos da sua geração ou se lhes seguiram, despreocupados com os tempos e os mundos que hão-de vir. Loureiro dos Santos foi um desses militares a quem pesaram as responsabilidades da História e que a fez andar. Em 1975 tornou- se peça decisiva, no regresso dos militares aos quartéis, ao pugnar pela ressalva Constitucional que garante a subordinação das Forças Armadas ao poder político. Não é fácil abdicar do poder quando ele nos cai no colo, mas menos ainda quando legitimamente o conquistamos.

O homem que ajudou a fazer cair a ditadura evitou logo a seguir que lhe sucedesse outra. No 25 de novembro voltou a lutar pela Liberdade. Teve assento e secretariou o Conselho da Revolução, foi o CEME fiel aos seus homens, e o ministro da Defesa, de bom-humor mas reconhecido mau feitio, em tempos conturbados daqueles Governos de iniciativa presidencial que ninguém sabe situar exatamente na História. Tanto que ela andou depressa demais para se conseguir fixar, quanto mais aprender. Quem saberá hoje fazer jus aos nomes Mota Pinto e Lurdes Pintassilgo. Nos idos dos governos do General (do outro!), o quase irmão, que quando nos deixar nos fará definitivamente órfãos de uma ética militar e social de que ambos se tornaram guardiões.

Loureiro dos Santos foi figura de referência e de equilíbrio. “Consensual”, dirá Marcelo. Talvez o Presidente tenha preferido esta palavra como sinónimo de “bom-senso, prudência, coragem, sabedoria, resiliência”. Mas naqueles tempos nenhuma dessas qualidades pareciam consensuais. Pelo contrário, se havia coisa rara e divisionista, em finais de 1970, eram o “bom senso” e o bom humor do general.

Loureiro dos Santos não deve ter sido consensual entre os seus irmãos de armas, e a prova é que demorou tempo a reconhecerem-no como aquilo que ele genuinamente era: o intelectual que pensa o papel das Forças Armadas, que via a Defesa em todas as suas componentes civis e militares e olhava a situação geoestratégica do país muito para além da visão reduzida e preconceituosa de muitos camaradas da altura.

Gostava de ensinar. E gostava de ensinar todos. E sempre, a qualquer hora. Gostava de ensinar os militares mais novos (sabendo que todos lhe passariam pelas mãos, mais cedo ou mais tarde) e gostava de ensinar os outros professores, os ex- e futuros Chefes que, com ele, pensavam muitas vezes em conjunto. Gostava de jornalistas. Aqui, na Renascença, foi quase nosso comentador permanente. Tão disponível para os media quanto para os companheiros de ofício.

Nunca dizia não, e antes e depois das entrevistas a conversa continuava a fluir, com uma avidez natural de quem tem muito para dizer e pouco tempo para aproveitar. Uma vez tive a sorte de vir “de boleia” com o General de um colóquio em Cáceres, e a aula prolongou-se de Espanha até Lisboa. Era tão obcecado com a Pátria e a sociedade, o bem comum, a honra e a liberdade, que não perdeu uma ocasião para se fazer ouvir. Sabendo fazer da palavra anunciada, na academia, nos fóruns sociais, nos meios de comunicação social e na acção directa em sociedade a arma mais eficaz de intervenção. Homem de uma simplicidade natural e sem bravatas, foi fazendo caminho discreto no pós 25 de novembro, trabalhando em contínuo para a consolidação da Democracia, que sabia ser tão frágil quanto ele a queria forte.

A pedagogia foi a sua ordem de operações preferida. Uma e outra vez repetiu, fosse onde fosse, que a ética era o eixo onde haveriam de girar os valores que permitiam construir a Liberdade. Nessa consigna citava e partilhava com Adriano Moreira, em tantos aspetos diferentes, mas com tanto em comum. E foram tantos e tantas a quem passou o testemunho que transbordavam as alas formadas para o honrar.

“Ando agora a trabalhar, em deixar umas ideias para quem vier a seguir perceber melhor o mundo e a nossa história. Convenceram-me que terá algum interesse”, disse-me na última vez que vi o General. Vim a saber depois, com uma pontinha de inveja, que era a Luísa Meireles, que tanto admirava, que estava a organizar essa tarefa. Em boa hora escreveu. Obrigada Luísa, por teres passado a livro a vida do “nosso” General.

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