Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​A Itália e o euro

19 nov, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Uma nova crise do euro seria gostosamente encarada pelos governantes italianos que querem destruir a UE.

O comissário europeu Carlos Moedas afirmou, há dias, estar mais preocupado com o confronto entre o governo italiano e a Comissão Europeia, por causa das metas do défice, do que com o Brexit. Os últimos acontecimentos no Reino Unido, na sequência do “acordo técnico” alcançado entre o governo de T. May e a UE, encobriram, nos meios europeus de comunicação social, a questão da Itália. Mas ela está lá e ainda pode trazer graves sarilhos à moeda única e à integração europeia em geral. Bem como a Portugal, com a grande dívida pública que tem.

Quando foi acordada, em Maastricht, no final de 1992, a criação de moeda única europeia, os alemães não ficaram felizes. Recearam que a indisciplina das finanças públicas de alguns países, com a Itália à cabeça, enfraquecesse a nova moeda. Foi com relutância que – sem referendo - abdicaram do marco, uma moeda forte, isto é, cujo poder de compra não era prejudicado pela inflação. O Bundesbank era o guardião do marco, reagindo ao menor sintoma inflacionário com medidas restritivas de política monetária – subir juros, sobretudo.

Os receios alemães levaram aos célebres critérios da moeda única quanto ao défice orçamental e à dívida pública. Muita gente criticou esses critérios, como depois viria a discordar do chamado e ainda mais restritivo Tratado Orçamental.

A verdade é que tais critérios foram ignorados, na prática, quando o “culpado” foi a Alemanha ou a França, mas não quando se tratava de países menos poderosos, como Portugal ou a Grécia. E agora, o que fazer com a Itália?

A dimensão da economia italiana exclui um resgate como o que envolveu Portugal, a Irlanda e a Grécia. Já uma maior despesa em investimentos na Alemanha e na Holanda (que têm grandes excedentes orçamentais) ajudaria a economia italiana a sair do seu marasmo, como ajudaria Portugal a exportar mais.

O semanário “The Economist” sugeriu uma mutualização limitada da dívida italiana, reconhecendo, porém, que se trata de um anátema para o Norte europeu. E lembrou que a elevada dívida pública italiana ultrapassou os 100% do PIB há três décadas e que a Itália tem conseguido excedentes orçamentais primários (isto é, não contando com a fatura dos juros) quase todos os anos no último quarto de século. Também joga em favor da Itália o facto de a maioria da sua dívida pública estar em mãos italianas e só atingir a maturidade daqui a sete anos.

O PIB por cabeça dos italianos está agora abaixo do que era no final do séc. XX, antes do euro. A sua economia praticamente não cresce. O que torna necessário, da parte da Comissão Europeia e do Eurogrupo, um grande cuidado para que Bruxelas não se tornar um bode expiatório das insuficiências italianas e uma alavanca de promoção do euroceticismo de Salvini e seus parceiros. Não será fácil. Até porque uma nova crise do euro seria gostosamente encarada pelos governantes italianos que querem destruir a UE.
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