Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​Brexit: a crise esperada

16 nov, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A crise agora aberta no relacionamento do Reino Unido com a UE é muito mais séria do que a crise do Suez em 1956, diz Martin Wolf.

Ontem de manhã, em Bruxelas, Donald Tusk, Presidente da UE, disse que o “acordo técnico” obtido com o Reino Unido seria assinado no domingo, 25 de novembro, numa cimeira - "se nada de extraordinário acontecer até lá". Ontem mesmo, horas depois de Tusk ter falado, aconteceu algo que, não sendo extraordinário (era previsível), impedirá provavelmente a assinatura desse acordo: uma enorme revolta britânica contra o “acordo técnico”.

Na quarta-feira T. May presidiu a um conselho de ministros exclusivamente sobre o entendimento com a UE. Após mais de cinco horas de debate, a maioria dos ministros aprovou o acordo. Só que, depois disso e ao longo de quinta-feira sucederam-se as demissões de ministros e altos funcionários, por discordarem do acordo.

Entre os demissionários contou-se o ministro que chefiou as últimas negociações, Dominic Raab. O anterior ministro de May que liderou as negociações com Michel Barnier, da UE, David Davies, demitira-se em julho passado. Um deputado conservador eurocético comentou: “É o fim da linha para T. May. Se a pessoa que é suposta liderar as negociações não concorda com o resultado delas, como poderá concordar a Câmara dos Comuns ou a nação? É uma cena de terror.”

Por sua vez, Tony Blair insistiu na sua proposta de um novo referendo, porque o “acordo técnico” não era aceite por ninguém na Grã-Bretanha. E o principal comentador do “Financial Times”, Martin Wolf, iniciava assim o artigo que a meio do dia de ontem colocou no “site” do jornal: “Parabéns! A primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, conseguiu unir uma nação profundamente dividida numa coisa: o acordo que ela obteve é péssimo”.

M. Wolf considera que terá de ser reaberto o “dossier” do Brexit. O que provavelmente implicará um segundo referendo, novas eleições no Reino Unido e um adiamento da prevista saída deste país da UE (29 de março de 2019). E M. Wolf termina o seu artigo dizendo que esta crise é um sarilho muito mais sério do que a crise do Suez, em 1956, quando os EUA humilharam os europeus ao fazerem abortar um ataque britânico, francês e israelita ao Egipto de Nasser, que tinha fechado o canal do Suez.

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