Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
A+ / A-

​T. May e as negociações do Brexit

14 nov, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Não será possível prolongar indefinidamente umas negociações em que a parte britânica não consegue apoio do seu próprio governo.

"Estamos no fim do jogo", disse Theresa May sobre as negociações com a UE sobre o Brexit. Mas admitiu que os assuntos pendentes são ainda "significativos".

Porventura o problema maior está na incapacidade de May para obter apoio interno para as suas propostas, incluindo no interior do governo que teoricamente dirige. Já vários ministros se demitiram, por discordarem da maneira como May tem conduzido as negociações do lado britânico. Foi o caso do primeiro negociador-chefe do Reino Unido, David Davis, e do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Boris Johnson.

Mas o desacordo interno chegou ao ponto de, na passada sexta-feira, se ter demitido o ministro dos Transportes, Jo Johnson, irmão de Boris Johnson, mas defensor da permanência do Reino Unido na UE – ao contrário de Boris, que se tornou um ardente adversário dessa permanência. Jo Johnson afirma-se favorável a um novo referendo.

T. May cometeu o erro fatal de convocar eleições gerais antecipadas em junho do ano passado, para aumentar a sua curta maioria na Câmara dos Comuns. Afinal perdeu essa maioria – e hoje precisa do apoio parlamentar do partido pró-britânico da Irlanda do Norte, o que não facilita a resolução do problema mais espinhoso – a manutenção de uma fronteira aberta entre a República da Irlanda e o Ulster (Irlanda do Norte), uma exigência do acordo de paz conseguido entre católicos e protestantes há vinte anos.

Um segundo referendo sobre a saída, ou não, do Reino Unido da Europa comunitária poderá justificar-se, dadas as informações erradas (às vezes ridiculamente falsas) que os partidários da saída transmitiram durante a campanha do referendo de 23 de junho de 2016. E é bem possível (embora não certo) que um segundo referendo decidisse pela permanência do Reino Unido na UE. Tony Blair, na Web Summit em Lisboa, defendeu um segundo referendo.

Mas politicamente será muito difícil concretizar um novo referendo. Nunca mais deixariam de se ouvir vozes indignadas clamando “traição!” e assim limitando a capacidade de ação do governo de Londres que sucedesse ao executivo de May. Por isso nem conservadores europeístas – uma minoria, mas que existe – nem os trabalhistas (cujo objetivo é serem governo, com ou sem ligação à UE) estarão dispostos a correr esse risco político.

Caso mais uma vez T. May não consiga obter o apoio interno de que necessita para as suas posições negociais, será sensato pôr termo às negociações do Brexit. Claro que isto significaria uma saída do Reino Unido da UE, em 29 de março próximo, sem acordo de transição. Será prejudicial para ambas as partes, mas não parece possível prosseguir umas negociações nas quais a parte britânica não é capaz de assumir uma posição apoiada pelo seu partido e pelo seu governo. Resta, ainda, a milagrosa possibilidade de, finalmente, desta vez T. May não ser torpedeada no Reino Unido.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.