Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Emprego, salários e pobreza

09 nov, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A manutenção do Estado social é um imperativo de civilização; e se o dinheiro escasseia terá que haver uma discriminação positiva para os que são realmente pobres.

Há sinais de que o desemprego em Portugal estabilizou um pouco abaixo dos 7% da população ativa. Em abril de 2013 chegara quase aos 18%, diminuindo assim perto de onze pontos percentuais em cinco anos. Outra evolução positiva foi esta semana revelada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE): o salário médio em Portugal subiu 3,5% no terceiro trimestre deste ano, face ao mesmo trimestre de 2017. No ano passado a subida fora de 2% e em 2016 de 1,5%.

Uma coisa tem a ver com a outra, naturalmente. Há menos gente desempregada, que estaria em princípio disponível para receber um baixo salário. As empresas têm de pagar mais para contratarem os trabalhadores de que necessitam – e mesmo assim frequentemente não o conseguem. Daí a conveniência de promover a imigração, cada vez mais necessária num país em rápido envelhecimento, como Portugal.

A evolução salarial positiva não é um exclusivo nacional. Na economia americana, por exemplo, parece ter finalmente acabado, ou pelo menos abrandado, a quase estagnação dos rendimentos das classes média e baixa que durava há décadas. Os salários americanos estão a subir razoavelmente, sem ameaçarem com inflação. A tendência para uma concentração da riqueza num grupo populacional restrito – fala-se em 1% - talvez venha a inverter-se, evitando um crescimento escandaloso das disparidades de rendimentos. Tendência que não tem sido contrariada pela política fiscal de Trump, nem será com a prevista orientação de Bolsonaro.

Voltando ao nosso país, a subida média dos salários médios é de saudar. Mas o salário médio dos representantes do poder legislativo e dos órgãos executivos, bem como de diretores e gestores empresariais, é o que aumenta mais em Portugal. Subiu 7,1%, o dobro da média nacional. Pagar melhor aos políticos e aos altos cargos da Administração Pública é uma necessidade, se queremos ter um Estado capaz de enfrentar os grandes interesses privados. Já tenho sérias dúvidas sobre a continuação do crescente desequilíbrio de vencimentos no interior de muitas empresas.

Não podemos esquecer que, entre nós, mais de um milhão de trabalhadores são pobres. Quase 11% dos pobres existentes em Portugal trabalham – mas o seu salário não chega para pagar despesas essenciais. Um outro inquérito do INE, citado pelo “Público”, revela que a maior parte dos trabalhadores em Portugal não consegue, ou só consegue com muita dificuldade, ausentar-se do emprego por um dia para cuidar dos filhos; e 42% não podem alterar a sua hora de entrada ou de saída para irem ao médico com as crianças, para participarem em reuniões da escola, ou para amamentarem.

Na Europa estima-se que existam cerca de 70 milhões de trabalhadores em situação de pobreza. Em França, o Secours Catholique alertou para que se está a registar um regresso à pobreza dos mais velhos. A manutenção do Estado social é um imperativo de civilização; e se o dinheiro escasseia terá que haver uma discriminação positiva para os que são realmente pobres.

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