Opinião de Henrique Raposo
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Opinião de Henrique Raposo

Somos os tais com filhos

02 nov, 2018 • Opinião de Henrique Raposo


Hoje em dia, ser cool é casar e ter filhos; hoje em dia, ser radical é ser pai de família. Em 2018, estar no romantismo da periferia e ter o charme do contra, implica entrar no casamento.

Para quem dançou e ouviu tanto funaná, eu devia gostar de hip-hop. Mas não sou fã. Não é a minha frequência. Estou em FM e aquilo toca em AM. Contudo, sou grande seguidor deste Carlão mais velho que compreendeu algo que outros músicos desta geração, Fúria, Úria e Tiago Cavaco, também já tinham percebido: hoje em dia, ser cool é casar e ter filhos; hoje em dia, ser radical é ser pai de família.

Em 2018, estar no romantismo da periferia e ter o charme do contra, implica entrar no casamento. Ser “punk” ou “rapper” é cantar a batalha do casamento, como faz Carlão: “tenho filhas pa criar, não dá pa vacilar”. Sim, em 2018, um rapper iconoclasta não faz as habituais homenagens à vida da noite, da marginalidade, do bon vivant, do crime. Faz, isso sim, odes à vidinha do casamento: “ter uma vida séria como eu nunca pensei”.

Duas ou três músicas de Carlão são tratadas como salmos cá em casa; salmos sobre o casamento e tudo o que ele implica de renúncia e redenção. O caminho que vai da renúncia à redenção é aquilo que as pessoas normalmente apelidam de "amor". Começo por "Os Tais”. Esta faixa é honesta e reconhece que “às vezes não é fácil”. Carlão podia aqui ceder ao cinismo engraçadista que tem dois efeitos seguros: aceitação crítica e divórcio. Mas resiste. Logo a seguir, declara a sua esperança na ideia de que “damos sempre a volta”. Porque é que damos a volta? Primeiro, as pequenas coisas contam. Por exemplo, “é tão bom acordar de manhã, olhar para ti antes de ir bulir no que sempre curti”.

Segundo, as grandes coisas que nos abrem o campo de visão, que nos retiram do vórtice do presente: os filhos. No caso de Carlão, filhas. “Firmes e constantes”, “somos os tais que viraram pais”. Esta expressão “os tais”, que indica espanto, faz todo o sentido. Às vezes, quando vou na rua com as minhas filhas, as pessoas olham para mim como se eu fosse um alien, Olha, ali vai o tal que já tem duas filhas. Que loucura, meu Deus!

Gosto de "Os Tais", mas o meu salmo favorito é “Contigo”. Esta faixa aprofunda as duas premissas. Primeiro, as pequenas coisas que nos seguram aqui e agora: “e no final do dia partilho inseguranças, revelo segredos sem medo de cobranças”. Segundo, as esperanças no futuro e a certeza de que o casamento pede um tempo diferente daquele que nos é servido todos os dias pela sociedade apressada do like e da partilha.

O casamento exige que pensemos na escala das décadas, não na escala das horas, dias ou meses. O que são longos meses de tormento ao pé de uma vida inteira? Se "é tão perfeito dormir com quem se ama” e ainda é mais perfeito projectar esse amor no futuro: “Baby, Deus queira que a gente chegue a avós, Tipo Cocoon a curtir que nem uns putos”. Este futuro avoengo retira-nos do sufoco do presente, sobretudo quando as coisas não estão fáceis. Mas, mesmo aí, “é este o panorama e eu não mudava um miligrama“. A menina dança um funaná?

Comentários
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  • Vera
    05 nov, 2018 Palmela 17:40
    Cheguei atrasada, mas o que importa é que cheguei! No dia que este texto saiu, eu ou as minhas ideias, estavam muito longe daqui: de mim própria e de tudo o que me cerca! sabe como é ter vontade de cumprir aquilo que achamos que é um dever, mas não podemos fazer? Pois era lá que o meu pensamento estava, mas verdadeiramente eu estava em cima da minha cama a olhar para o tecto e à espera, de quem foi por mim cumprir um dever que me pertencia! e baralhei-me nos dias: na sexta, pensei que era domingo! e no domingo pensei que era sábado! quando liguei a RR para ouvir o Paulino e o Júlio Isidro, estava a dar a missa e então foi aí, que consegui pôr o calendário em dia! e que percebi que hoje já é segunda-feira, lembrei-me de vir aqui como de costume ver as notícias da RR e voltei a página do jornal atrás. Henrique Raposo se não percebeu nada do que eu disse não faça caso, que não é grave! foi só uma confusão de origem psicológica que segundo os médicos, são coisas da idade! comigo nunca tinha acontecido, mas há sempre uma 1ª vez, para tudo na vida! Quanto ao texto, não sei quem é o Carlão, mas pelo que o Henrique descreveu, posso perceber que é alguém, que canta algo que eu nunca ouvi! deve ser alguém que avançou no tempo e eu não dei por isso! e como se costuma dizer que" para bom entendedor meia palavra basta" só posso elogiá-lo!!! pelo bom texto que escreveu! que lhe deu transparência, fazendo uma descrição de alguém que ainda poucos conhecem! e pelos comentários, não sou só eu.
  • João Lopes
    02 nov, 2018 Viseu 13:06
    Magnífico artigo de Henrique Raposo. Diz coisas muito sérias brincando com palavras. É na família de sempre onde as pessoas podem ser verdadeiramente felizes e fazer felizes os outros…