Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​Nova corrida aos armamentos?

24 out, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


As violações pela Rússia do tratado de limitação de mísseis de médio alcance não são só de hoje. E colocam um problema à Europa, agora que, com a prevista saída do Reino Unido da UE, esta conta apenas um país com armas nucleares, a França.

O presidente Trump anunciou que os EUA iriam abandonar o tratado sobre a limitação de mísseis convencionais e nucleares assinado por Reagan e Gorbachev em 1987. O tratado seguiu-se a uma escalada no fim da década de 70, provocando forte contestação na Europa ocidental – foi a crise dos euromísseis. A União Soviética respondeu, então, aos mísseis da NATO com mísseis nucleares apontados às mais importantes capitais europeias

O acordo obtido nos últimos tempos da guerra fria baniu mísseis com um alcance entre 500 e 5500 km. – ou seja, mísseis ameaçando sobretudo a Europa, não os EUA. Trump justificou abandoná-lo alegando repetidas violações por parte da Rússia. Em 2014 Obama havia denunciado violações russas, mas manteve os EUA no tratado. E o secretário-geral da NATO, o norueguês Jens Stoltenberg, lamentou publicamente, há semanas, que Moscovo não tivesse fornecido informações sobre um novo míssil russo, considerando provável que a Rússia tenha violado o tratado de 1987. Acrescente-se, ainda, que o ministro britânico da defesa, Gavin Williamson, apoiou a posição de Trump.

Claro que os russos reagiram energicamente contra o anúncio de Trump. Mas há quem admita que este anúncio terá alegrado os “falcões” militares russos, que assim poderão não ter limites na instalação de novos mísseis - e conseguem lançar o odioso da situação sobre os EUA.

Estes factos convidam à prudência na condenação do presidente americano. É verdade que Trump multiplica o rompimento unilateral de tratados e acordos internacionais – como o acordo de Paris sobre o clima e o acordo nuclear com o Irão. E que o grande impulsionador do rompimento do tratado de 1987 parece ser o Conselheiro-chefe da Segurança Nacional da Casa Branca, o falcão John Bolton, de quem não se esperam atitudes sensatas.

Mas a Rússia de Putin não merece confiança, como se viu e se vê na Ucrânia oriental e na Crimeia. Ou no assassinato em países ocidentais de antigos espiões russos, que “traíram o KGB”, passando para o Ocidente. Ou, ainda, quando Putin garante que não houve interferências russas, via internet, nas eleições nos EUA e em vários países europeus.

Trump disse encarar a limitação de armas nucleares americanas se houver um acordo fiável incluindo, além da Rússia, a China – que tem reforçado o seu investimento militar e se mostra agressiva no sul do mar da China, não tendo que respeitar qualquer acordo internacional de limitação de armas. “Nós temos, de longe, mais dinheiro do que eles. Vamos reforçar o arsenal nuclear. Quando os outros (Rússia, China) pararem de o fazer, nós também o faremos” – declarou Trump. Mas é improvável que a China, em plena guerra comercial desencadeada por Trump, esteja aberta a negociações sobre armas nucleares.

Veremos se Trump é sincero na maneira como irá decorrer a renegociação com a Rússia do tratado Start (de limitação de armas nucleares russas e americanas) cuja vigência termina em 2021. Infelizmente, não é possível excluir uma nova e perigosa corrida às armas. O que coloca um problema complicado à Europa, sobretudo agora que, com a prevista saída do Reino Unido da UE, esta contará apenas um país com armas nucleares, a França.

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