Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
A+ / A-
Tentar Perceber

A desilusão saudita

20 out, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


O alegado, e muito provável, assassinato de um jornalista saudita no consulado da Arábia Saudita em Istambul coloca Trump numa situação difícil e desfaz a ilusão de que o príncipe herdeiro saudita seria um reformista.

A primeira visita ao estrangeiro do Presidente Trump foi à Arábia Saudita, em maio do ano passado. No conflito dos sunitas da Arábia Saudita contra os xiitas do Irão, Trump apoiou os sauditas.

A frente anti-Irão também inclui Israel, que Trump presenteou deslocando a embaixada americana de Telavive para Jerusalém. E retirou os EUA do acordo nuclear com o Irão, contra a opinião dos aliados europeus, bem como da Rússia e da China.

Na sua visita a Riade, capital da Arábia Saudita, Trump vendeu então uma colossal quantidade de armamento americano, para tal eliminando limites de vendas de armas, impostos pelo seu antecessor Obama à Arábia Saudita, por causa do seu envolvimento militar na guerra civil no Iémen. E apoiou os líderes sauditas não apenas na hostilidade ao Irão, como também no isolamento do Qatar e na sangrenta guerra do Iémen, que aliás não tem corrido bem à Arábia Saudita.

Entretanto, o genro de Trump, Jared Kushner, estabeleceu relações amigáveis e muito próximas com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Maomé bin Salman, que de facto governa o país.

Este governante adquiriu uma aura reformista, que caiu bem no Ocidente. Permitiu que as mulheres sauditas guiassem automóveis e assistissem a espetáculos desportivos, moderou o zelo da polícia religiosa, etc. E criou a imagem de um reformador também na economia, ao anunciar uma política de gradual redução da dependência saudita da produção petrolífera, procurando outros sectores de atividade económica, para o que contava com investidores estrangeiros.

Insucessos do príncipe-herdeiro

Mas as coisas não têm corrido de feição ao príncipe herdeiro, ainda antes do escândalo do jornalista saudita alegadamente assassinado no consulado da Arábia Saudita em Istambul, Turquia.

O lado autoritário, ditatorial mesmo e violento, de bin Salman revelou-se, por exemplo, quando encerrou num hotel de luxo de Riade um grande número de príncipes, muitos deles seus parentes, e de homens de negócios, só os deixando sair depois de lhes extorquir quantias enormes de dinheiro. Durante algum tempo deteve em Riade o primeiro-ministro do Líbano, Saad Hariri, aparentemente levando-o à demissão.

No plano económico, bin Salman também registou alguns insucessos. A projetada entrada em bolsa e venda de parte do capital (100 mil milhões de dólares) da grande empresa petrolífera Saudi Aramco foram adiadas, ninguém sabendo se alguma vez se concretizarão. Uma grande conferência internacional de negócios, em Riade, que no ano passado reuniu ali a nata mundial da finança e da vida empresarial, regista agora inúmeras desistências. Também vão faltar à reunião representantes governamentais de vários países europeus e até dos EUA. E já algumas empresas internacionais anunciaram o cancelamento dos seus projetados investimentos na Arábia Saudita.

O príncipe herdeiro bin Salman mostrou não tolerar críticas à sua governação, mandando prender quem se atreve a discordar dele, nomeadamente jornalistas e ativistas dos direitos humanos. Recentemente um economista saudita discordou publicamente da anunciada operação da Aramco; resultado: foi acusado de terrorismo e enviado para um tribunal (a independência judicial não é propriamente uma característica do regime saudita).

A grande popularidade do príncipe herdeiro, justificada pelas esperanças de uma certa liberalização da sociedade e do Estado sauditas, começou a esmorecer.

Depois da triste passividade da vencedora do prémio Nobel da Paz em 1991, Suu Kyi, face ao genocídio dos “rohingya” na Birmânia, é lamentável ver frustradas as esperanças de alguma mudança do regime político arcaico da Arábia Saudita.

O caso do jornalista Jamal Khashoggi, alegadamente torturado e morto no consulado da Arábia Saudita em Istambul, não favorece bin Salman. A polícia turca terá provas do crime e da ligação ao príncipe herdeiro. Por ironia do destino, crime que vitimou um jornalista, num país cujo líder, o Presidente Erdogan, é o campeão mundial da prisão de jornalistas. O último artigo que Kashoggi enviou para o “Washington Post”, de que era colaborador, denunciava a falta de liberdade de expressão na Arábia Saudita.

Trump preocupado

Quem se preocupou seriamente com este caso foi o Presidente Trump. Compreende-se: fica um tanto em causa a mudança de orientação que ele promoveu na política externa dos EUA para o Médio Oriente.

Conhecido o escândalo Khashoggi, Trump telefonou ao rei Salman, não ao seu filho, príncipe-herdeiro. E enviou o Secretário de Estado (ministro dos Negócios Estrangeiros) Mike Pompeo a Riade, para falar, antes de mais, com o rei Salman, de 82 anos, que está débil mas não incapacitado.

O rei prometeu a Trump e, depois, pessoalmente a M. Pompeo, que seria levada a cabo uma rigorosa investigação. Tanto bastou para Trump começar a desculpar o rei saudita, invocando que não se pode acreditar em todas as denúncias. Mas depois – decerto porque chegaram aos EUA provas sérias – admitiu que Khashoggi terá mesmo sido assassinado e falou em eventuais consequências severas para a Arábia Saudita.

Acontece que no Congresso de Washington, entre democratas e também republicanos, reina a indignação com a Arábia Saudita – sobretudo entre os congressistas que, antes, mais tinham apoiado o estreitamento de relações dos EUA com aquele país; e daqui a menos de um mês há eleições para toda a Câmara dos Representantes e para um terço do Senado federal. Mas Trump não irá suspender a venda de armas aos sauditas e precisa de Riade para manter a produção petrolífera saudita, de maneira a travar a subida dos preços do “crude”.

A família real saudita multiplicou as suas reuniões internas, percebendo a gravidade deste caso. Provavelmente dali virá um solene comunicado, dizendo foi um erro, um engano, cometido sem o conhecimento do rei e do príncipe herdeiro, culpando um subalterno para servir de bode expiatório…

Ninguém acreditará, até porque a polícia turca parece possuir provas sólidas de que o jornalista foi morto e esquartejado no consulado, e depois os seus restos mortais metidos num automóvel, tudo por pessoas ligadas a bin Salman. Segundo a imprensa turca, há dias um suspeito da morte do jornalista terá morrido em Riade num “oportuno” acidente de viação... O príncipe herdeiro deverá perder algum do seu atual poder absoluto.

Escreveu o “New York Times” em editorial que a prova de graves malfeitorias não evitou que Trump admirasse gente como Putin (Rússia), Rodrigo Duterte (Filipinas), Fattah al-Sisi (Egipto) ou Kim Jong-un (Coreia do Norte). Por que motivo reagiria de outra forma a este escândalo? Nem Trump nem o rei e o príncipe herdeiro da Arábia Saudita mostram qualquer interesse por respeitar os direitos humanos - algo que Trump encara, na prática, como um sinal de fraqueza.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • António Costa
    20 out, 2018 Cacém 22:17
    O "triunvirato" anti-Irão formado pelos "grandes amigos" do Ocidente Israel, Turquia e Arábia Saudita sempre foi um "saco de gatos". Não é novidade nenhuma. Os dirigentes "reformistas" no Médio Oriente acabam normalmente "sem cabeça". Isto perante a total indiferença ocidental. A Arábia Saudita é o garante dos Lugares Santos do Islão. O Islão é em si mesmo a Constituição da Arábia Saudita. E o Islão não se reforma, seria uma blasfêmia!