Opinião de Henrique Raposo
A+ / A-
Nem ateu nem fariseu

A missa: uma educação moral

12 out, 2018 • Opinião de Henrique Raposo


Em terceiro lugar, a criança aprende na missa que não é o centro do mundo.

Meus caros pais e mães, colegas de infortúnio, tenho cada vez mais a certeza de que levar os miúdos à missa é porventura a melhor educação que lhes podemos dar. Não estou a falar de instrução, embora a missa não seja despicienda nesse aspecto. Não é possível compreendemos a civilização que criámos sem as leituras da Bíblia. Crente ou não crente, a Bíblia é alta cultura. Mas hoje quero apenas falar de educação moral. Na odisseia que é criar uma pessoa decente, entre o cinismo e a lamechice, a missa é um degrau único.

Em primeiro lugar, a criança aprende ali a estar calada, o que espantoso nesta época de perpétua conversa; não há telemóvel falado ou escrito. Aprende o valor do silêncio e da introspecção numa época que mata o silêncio todos os dias. Estamos na Torre rodeados por neve e pelo silêncio da montanha, mas o bar tem a música em altos berros. Quando se pede para baixar, a resposta é, Não posso! A nossa atmosfera é esta, percebe? Não, não percebo. A igreja é cada vez mais o único espaço que educa para o silêncio.

Em segundo lugar, a criança aprende a controlar o seu perímetro físico. As minhas filhas às vezes estão chatas, não param quietas, mas pelo menos sabem que não podem sair daquele apertado círculo à nossa volta. No máximo, escondem-se debaixo do banco e por lá pintam cadernos que transformam o genuflexório numa mesa de pinturas. Sim, às vezes, é preciso pôr na ordem as senhoras-paroquianas-profundamente-devotas-e-que-acham-que-eu-sou-um-impuro-samaritano. Estas senhoras dizem que as crianças não devem fazer “coisas” na missa. Eu respondo, Então a sua solução é ter igrejas vazias? Está a conseguir, muitos parabéns!

Em terceiro lugar, a criança aprende na missa que não é o centro do mundo. Este é talvez o ponto central, porque vivemos numa sociedade que deu a soberania à criança. Ela cresce a pensar que tem uma gravidade especial e que tudo gira mesmo à sua volta, da televisão ao fim-de-semana dos pais. Ali, entre cânticos e incenso, ela percebe que afinal não tem a gravidade de Júpiter. Há um ritual para cumprir, um rito que é exterior à sua vontade. Mais importante do que o rito, aprende que há valores eternos que são mais importantes do que qualquer pessoa ou moda.

Em quarto lugar, percebe que há um mundo humano e analógico para lá dos ecrãs, um mundo que muitas vezes é diferente do seu. Sim, na Paz de Cristo, tem de dar um beijo a um estranho mesmo quando esse estranho é uma velhinha com um buço amazónico. Ó pai, aquela senhora pica! Pois pica, mas é tua irmã. Ó pai, aquele senhor velhinho tem um cheiro esquisito! Pois tem, mas é teu irmão. Jesus nasceu entre pessoas como esse cheiro.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • José Luís Vaz e Gala
    18 out, 2018 Lisboa 16:05
    Por causa do barulho e irrequietamente das crianças sempre há a opção quando as crianças são muito pequenas de se alternar a ida do pai e da mãe se ambos forem à missa.
  • Filipa
    18 out, 2018 Caxias 09:55
    Parabéns pelo seu artigo. Eu deixei de ir à missa por uns tempos, Quando tive o primeiro filho ainda ia, depois com dois já não conseguia. Agora com três ainda mais difícil é. O meu filho mais velho sempre que ia comigo não parava quieto, mesmo em casamentos e batizados era muito difícil. Agora com 6 anos entrou para os escuteiros é vai à missa com eles e eu finalmente consegui voltar a ir mas não levo os outros filhos. Vou começar a tentar levar a de três anos. (Este texto incentivou-me para isso)🙂. Para resumir ele adora a missa, porta-se lindamente, adora os cânticos e dou com ele a contar à irmã o que o Sr. Padre disse.
  • Helena T. Duarte
    17 out, 2018 Lisboa 23:40
    Muito bom!!! Obrigada pela visão de pai "diferente" do habitual sobre a Missa, mas tão verdadeira, que nos proporcionou!
  • Henrique Andrade
    12 out, 2018 Évora 16:57
    Henrique Raposo brilhante, como sempre. Parabéns!
  • Vera
    12 out, 2018 Palmela 12:14
    Pois é na missa aprende-se a ser educado e não andar a chatear os outros! mas é só na missa. Depois na rua, as crianças encontram aqueles que não vão à missa e fica o 'caldo entornado'! Mas, aquela frase da semana passada, dita na missa, que entrou no meu quarto através da 'RR', é que me deixou com vontade de ir à missa! só que, os meus pés não me deixaram e nem sei quando é que me vão deixar, ir à missa! só se o padre pedir a Deus por mim: que me ajude, mais um pouco... porque preciso muito de ter uma conversa com o padre, que deu a missa no domingo passado! porque, aquela história, que: quando Deus fez a mulher, nunca mais teve sossego, tem que ser esclarecida! "Ó meus amigos, não havia necessidade"! porque as crianças (rapazes) que ouviram isto, durante a semana, não fizeram nada do que a mãe disse! O padre não se lembrou que as mulheres são mães, que têm tarefas redobradas, que os homens não têm!!! claro que as mulheres têm que ser chatas por Natureza! não temos que penalizar as mulheres por esse facto, que é muito comum! E se os padres começarem com estas gracinhas, o melhor, é porem-nos também, a pregar os Evangelhos pelas portas... Depois logo se vê!...
  • Elisabete
    12 out, 2018 Setúbal 11:47
    Henrique fez com que eu recuasse uma dúzia de anos, quando o meu filho até sobras "chinesas" fazia na Eucaristia, para regalo de quem não tão pequeno também se divertia. Agora já passou, participa na Eucaristia, porque para nós pais Cristãos a Eucaristia é como a sopa só faz bem.
  • João Lopes
    12 out, 2018 Viseu 10:02
    Excelente artigo!