Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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O euro e a estratégia populista

10 out, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Os populistas que dominam o governo italiano apostam numa tomada do poder no Parlamento Europeu pelos eurocéticos e assim mudar as regras do euro.

“Não recuaremos um milímetro”, disse Luigi di Maio, há uma semana, a propósito do défice orçamental da Itália para 2019, que irá subir em vez de baixar, contra o que previam as metas de Bruxelas.

Como já aqui notei, esta posição do líder do movimento 5 estrelas é influenciada pelo facto de este movimento ter tido mais votos do que a Liga nas últimas eleições, mas a situação inverteu-se depois. Desde que entrou em funções o governo de coligação entre estas duas forças políticas.

Salvini, líder da Liga, tem sido visto como o verdadeiro “patrão” do executivo de Roma – o que lhe foi facilitado por ele ser ministro do Interior e protagonizar a proibição da entrada de refugiados.

Mas a forte venda de dívida pública italiana e a subida dos respetivos juros levou, afinal, a um pequeno recuo. Não sobre o défice de 2019, mas quanto aos défices dos anos seguintes.

Só que esse pequeno recuo não satisfez a Comissão Europeia, que insistiu num menor défice orçamental no próximo ano. Também não convenceu os mercados, que têm prosseguido a venda de dívida pública italiana, que só compram se os juros forem altos. As reservas ao futuro orçamento também têm a ver com a fraca crença no crescimento económico italiano.

Chegou, esta semana, a vez de Salvini reagir. À margem de uma reunião na segunda-feira em Roma com Marine Le Pen – tão anti-UE como ele – Salvini considerou o presidente da Comissão Europeia, Juncker, e o Comissário Moscovici “inimigos da Europa”. E atribuiu a subida dos juros da dívida italiana à especulação nos mercados (um argumento habitual).

Em matéria de especulação Salvini atacou mesmo George Soros – o grande inimigo de V. Orban, primeiro-ministro da Hungria, outro adversário da integração europeia e promotor da “democracia iliberal” no seu país.

Ninguém obrigou a Itália a aderir ao euro. Se os seus governantes não gostam das regras da moeda única (que são criticáveis, sem dúvida), então que abandonem a zona euro. Só que isso não seria popular em Itália e teria consequências económicas catastróficas.

A estratégia de di Maio e Salvini é outra e não a escondem. Apostam numa grande vitória dos eurocéticos nas eleições de maio de 2019 para o Parlamento Europeu (PE), o que, dizem eles, levará a uma completa alteração das regras da moeda única e não só – a UE daria lugar a uma comunidade de nações. Mas nem uma maioria eurocética é provável no PE, nem esta assembleia possui poderes para, por si só, mudar a arquitetura do euro e muito menos acabar com a UE. Como se o Conselho Europeu não existisse...

Não devo nem quero desvalorizar a ameaça que a ascensão do soberanismo nacionalista na Europa representa (embora seja difícil considerar Salvini um nacionalista, pois no tempo da Liga do Norte ele defendia separar a Itália do Norte da menos desenvolvida e mais corrupta Itália do Sul, o “mezzogiorno”, criando um novo país, a Padânia). Julgo que é preciso tomar muito a sério esta ameaça e fazer com que, nas eleições de 2019 para o PE, a abstenção finalmente deixe de subir, pelas boas razões.

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