Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Petróleo e gás mais caros

04 out, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Será prudente contar com petróleo e gás natural mais caros a curto e a médio prazos, com as inevitáveis consequências no bolso dos portugueses e nas contas externas do país.

O preço do barril de “brent” tem subido nas últimas semanas. E o gás natural também está mais caro. São más notícias para a economia portuguesa, ainda muito dependente dessas fontes de energia, totalmente importadas. O grande problema financeiro nacional são as contas externas, problema que foi ignorado pelo governo de Sócrates; o défice externo chegou então a cerca de 10% do PIB. Agora essas contas estão equilibradas, mas se o preço do petróleo e do gás continuarem o presente movimento de alta, as dificuldades regressarão nos próximos tempos.

São preços altamente voláteis. Em 2007 o preço do barril de “crude” ultrapassava os cem dólares. Mas em 2015 custava cerca de metade. É que os EUA intensificaram a produção de petróleo extraído de rochas xistosas (“shale oil”), tornando-se de novo num grande produtor, praticamente eliminando a dependência petrolífera externa (embora à custa de alguns problemas ambientais). Hoje, porém, volta a falar-se na possibilidade de o barril voltar aos cem dólares.

Entretanto, o gás natural – menos poluente do que o petróleo – está cerca de 40% mais caro do que há um ano. A China tem procurado limitar o uso de carvão, que possui em abundância mas é muito poluente, utilizando mais gás natural. Tendência semelhante ocorre no Japão, na Coreia do Sul e na Europa.

O encarecimento do petróleo bruto (“crude”) tem mais a ver com dificuldades de produção e oferta no mercado do que com aumentos (que existem) na procura mundial. Muitos produtores de petróleo de xisto nos EUA aproveitam a subida do “crude” para equilibrar financeiramente as suas empresas e pagar maiores dividendos aos acionistas, travando novos investimentos. Na produção petrolífera convencional escasseiam os investimentos na pesquisa e exploração, em parte pela perspetiva de “descarbonizar” a energia, suscitando dúvidas sobre o volume da oferta de “crude” a longo prazo – o que, naturalmente, faz subir os preços.

Igual resultado têm as sanções que Trump está a impor ao Irão, um grande produtor. A Venezuela, que possui as maiores reservas petrolíferas mundiais conhecidas, baixou brutalmente a sua produção, por problemas técnicos ligados ao desgoverno do país. E a Rússia e a OPEP recusaram o apelo de Trump para subirem a sua produção, o que aliviaria os preços.

Será, por isso, prudente contar com petróleo e gás natural mais caros a curto e a médio prazos, com os inevitáveis reflexos negativos no bolso dos portugueses e nas contas externas do país.

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