Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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​Crónica impopular

01 out, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


É perigosa para o bem comum a falta de quadros qualificados no Estado, que assim fica nas mãos das corporações.

Tudo indica que os funcionários públicos terão alguns aumentos salariais no próximo ano, para além da progressão das carreiras e da já realizada reversão dos cortes. Uma das hipóteses será melhorar sobretudo, ou apenas, os vencimentos mais baixos. Dir-se-á que se trata de um imperativo de justiça – e é verdade. E 2019 será ano de eleições... Mas importa ter presente o outro lado da moeda.

Esse lado é o crescente e perigoso enfraquecimento do Estado português devido à falta de quadros qualificados, que o sector privado remunera cada vez melhor. Não é popular chamar a atenção para este problema. Só que todos nós seremos - já somos – prejudicados pela perda de capacidade de ação efetiva da entidade, o Estado, cuja missão é defender o bem comum.

A fraqueza da sociedade civil, tantas vezes denunciada entre nós, tem muito a ver com a fraqueza do Estado. A nossa sociedade vive pendurada num Estado que vai fazendo a vontade das corporações que representam interesses particulares. Perde o bem comum, naturalmente.

É ultra sabido, mas ultra verdadeiro, que as corporações – isto é, os grupos de interesses particulares – mandam demasiado no nosso país desde há séculos. Fazem-no, em larga medida, capturando em seu benefício órgãos de decisão do Estado. E essa tarefa será tanto mais fácil quanto as corporações tiverem pela frente, do lado do Estado, pessoas mal pagas, logo suscetíveis de cederem a interesses particulares, em prejuízo do interesse nacional. No limite, é uma porta aberta à corrupção. Mas poderá, frequentemente, tratar-se de mera incompetência dos representantes do Estado face a técnicos privados, advogados e gestores altamente preparados e altamente pagos.

Claro que será impossível prosseguir a consolidação orçamental gastando muito dinheiro nos escalões mais elevados da Administração pública. Por isso seria bem-vinda uma reforma do Estado que reduzisse o número de funcionários de topo, mas melhorasse as respetivas remunerações, de maneira a atrair elevadas competências. Mas não se vislumbram condições para que essa reforma venha a ser realidade. Ressalta de uma auditoria da Inspeção Geral de Finanças, noticiada pelo diário “Negócios”, que o Estado português nem sequer conhece ao certo quantos funcionários tem, quais as suas remunerações e qualificações, onde trabalham...

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  • Cidadao
    01 out, 2018 lisboa 17:40
    Você é pago para escrever estas "crónicas" de lugares-comuns ou faz isto apenas por gosto? Os "funcionários de topo" de que fala, a menos que se refira aos "boys" e "girls" politicamente colocados, são normalmente os Juízes, os Médicos, os Enfermeiros, os Engenheiros, os Professores, os Arquitectos, ou seja, técnicos qualificados que dão credibilidade ao Serviço Público e que em muitas áreas, já são criticamente poucos. Falar em reduzir ainda mais o número, aumentando em troca as remunerações oferecidas - deve ser, deve... para aí uns 5€ mês, não? - é mesmo de quem não está no terreno, tem é um computador e uma folha de Excel à frente.