Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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O recuo da democracia no mundo

29 set, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


A democracia atravessa uma crise, mas contém em si possibilidades de se reformar e fortalecer. Não estamos condenados a novos fascismos.

Multiplicam-se os regimes e os governos autoritários, afastando-se da chamada democracia liberal. Dentro da União Europeia destacam-se a Hungria (cujo primeiro-ministro, Viktor Orbán, se gaba de vigorar no seu país uma “democracia iliberal”) e a Polónia, sendo que a Itália, a República Checa e a Áustria caminham nesse sentido. Noutros Estados membros existem fortes partidos de extrema-direita, embora ainda não participem no governo – como em França, na Suécia e na Holanda.

A Rússia pós-comunista não evoluiu para uma democracia autêntica e a China, com o seu capitalismo de Estado, tornou-se com o presidente Xi Jinping uma ainda mais repressiva ditadura política. Nos Estados Unidos é presidente um homem que tem escasso apreço pelos valores e regras da democracia e ignora os direitos humanos; veremos até que ponto a democracia americana, que funciona desde que o país se tornou independente, em 1775, conseguirá limitar os danos.

E por esse mundo fora temos, ainda, figuras sinistras como o presidente das Filipinas, Duterte, que autoriza e promove o abate de suspeitos, sem a maçada de julgamentos. Ou o defensor da ditadura militar e da tortura, que é Bolsonaro, o candidato presidencial brasileiro que vai à frente nas sondagens. Etc.

Motivos do declínio

O que motiva este declínio da democracia liberal? Paradoxalmente, um dos fatores desse declínio terá sido… a derrota do comunismo soviético. Por duas razões. Porque o receio do comunismo induzira alguns avanços sociais nos países capitalistas, estímulo que deixou de funcionar com o colapso comunista. E porque a vitória do capitalismo levou a um triunfalismo perverso nas democracias ricas, que afetou as exigências legais e éticas de muitos comportamentos. Passou valer tudo para ganhar dinheiro, muito dinheiro, como se tornou patente na crise hipotecária desencadeada a partir dos Estados Unidos há onze anos e depois se tornou global. Com algumas falências escandalosas, ainda antes da crise do “subprime”, cresceu a perceção das opiniões públicas quanto à corrupção.

Ao capitalismo industrial, que tinha transferido milhões de pessoas do proletariado para a classe média, sucedeu um capitalismo financeiro que agrava as disparidades de rendimentos no interior dos países. A concorrência tem diminuído nesses países – como os EUA – e uma pequena minoria enriquece cada vez mais, enquanto na classe média a melhoria do nível de vida quase estagnou. Começam a multiplicar-se os casos de adultos cujos filhos vão ter um nível vida pior do que o dos pais. Depois de, durante décadas, a classe média se ter habituado a subidas anuais de rendimentos, a estagnação (ou perto disso) do seu poder de compra instalou-se nos EUA e na Europa. Contrastando com essa tendência, uma pequena minoria – há quem fale em 1% da população – torna-se cada vez mais fabulosamente rica.

Entretanto, o Estado social encontra-se financeiramente ameaçado pelo envelhecimento demográfico, sobretudo nas pensões de reforma e nos apoios na área da saúde. E tem crescido o receio de que os avanços da informática e da automação produzam desemprego em larga escala. O crescente enfraquecimento dos sindicatos, em parte por causa das novas formas de trabalho, contribui para a modesta melhoria dos salários em economias desenvolvidas,

Tudo isto tem levado a uma descrença generalizada nos políticos – e a apostas em “salvadores” autoritários e pouco democráticos. É o terreno ideal para o desenvolvimento do populismo. Daí o descalabro eleitoral de muitos partidos tradicionais moderados, à direita e à esquerda.

Acima de tudo, a crise manifesta-se no plano dos valores, como tristemente revela a hostilidade aos imigrantes. O individualismo egoísta e a redução das aspirações de muita gente a meras melhorias materiais tornaram as sociedades modernas mais inóspitas, menos solidárias e menos decentes.

Lições da história

Importa olhar para história. Por exemplo, a revolução industrial, iniciada em Inglaterra no fim do séc. XVIII, substituiu inúmeros empregos por máquinas, que alguns operários chegaram então a destruir. Mas, a prazo, essa revolução criou muitíssimos mais empregos do que aqueles que extinguiu. E trouxe uma prosperidade que antes da era industrial não existia.

Decerto que a modernização industrial provocou milhões de “vítimas do progresso”, que só no século XX começaram a ser apoiadas. O desafio, agora, é evitar que as novas tecnologias e o envelhecimento populacional reduzam a solidariedade social e desprezem os direitos humanos.

No plano político, recorde-se que há um século a democracia liberal estava ameaçada por dois totalitarismos; o comunismo soviético e o nazi-fascismo. Não faltou, então, quem acreditasse que a democracia iria desaparecer da face da terra. No entanto, ela renasceu em força após a segunda guerra mundial.

Hoje, a democracia atravessa uma crise, mas – porque aposta na liberdade – contém em si possibilidades de se reformar e fortalecer. Não estamos condenados a novos fascismos, desde que não ignoremos a necessidade de mudar muita coisa.


Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus

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