Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

​A defesa de Serralves

28 set, 2018 • Opinião de Henrique Raposo


O padrão estético e moral da net é a selva. Ora, de uma instituição como Serralves espera-se um olhar civilizado que nos eleve acima da selva, um olhar que eduque, que civilize, que ensine.

Sobre o absurdo do caso em termos mediáticos e até políticos, Miguel Cadete escreveu o que havia a escrever. Quero passar à frente e entrar na substância moral e estética: faz sentido criar um “crescendo” na exposição, colocando no fim ou ao lado uma sala especial com fotos mais audazes? Faz. Faz sentido enquanto educação moral e sexual e enquanto educação artística.

Peguem por favor em duas premissas. Primeira: um dos meus pintores favoritos é Egon Schiele. Segunda: eu sou católico e pai de duas miúdas. Como é que articulo as duas premissas? Schiele retrata como ninguém a carnalidade feminina. É odiado em igual medida por beatas e por misóginos. Schiele também retrata territórios, digamos, proibidos. A pederastia muitas vezes assombra aqueles quadros. Perante isto, como é que eu posso levar as minhas filhas a uma exposição de Schiele? Devo levar? Devo, posso, quero, levarei um dia. Nesse sentido, espero que o museu em questão tenha a sensibilidade para fazer o tal “crescendo”, espero que o curador me ajude a educar moral e artisticamente as minhas filhas, isto é, espero que comece a exposição com os quadros mais suaves, espero que saiba criar a tensão ao longo do corredor, espero que termine com a tal sala ou salas dos quadros mais explosivos. E, sim, alguns dos quadros até podem ser retirados, alguns devem ser só para adultos.

É a lógica da bolinha vermelha dos filmes. Este interdito é fundamental quer na educação moral para o erotismo do Cântico dos Cânticos quer na educação artística. Não há arte sem tabus. Não há erotismo sem tabus. Se nada é tabu, se não há riscos na areia, então a força motriz da arte e do erotismo desaparece, fica apenas a liberdade total da selva. Querem ser cem por cento livres? Têm bom remédio: regressem ao estado da natureza.

Os jovens precisam de saber que existem terrenos proibidos. Não, não se trata de reprimir a imaginação. Pelo contrário: ler livros proibidos é em si mesmo a melhor ferramenta para estimular a leitura, por exemplo. Cá em casa, vamos arrumar os romances e a poesia por idades e por alturas. Por alturas? Sim: os romances que podem ser lidos por uma menina de dez anos ficam nas prateleiras mais baixas; as prateleiras mais altas terão os romances e a poesia que necessitam de outra maturidade. Mas, às tantas, elas não podem simplesmente tirar e ler os livros proibidos às escondidas? Espero que o façam.

Serralves e todos os museus do mundo que mostram a obra de Mapplethorpe seguem a lógica da prateleira. Qual é o escândalo? Muitos dizem que isto não faz sentido porque hoje em dia os miúdos já vêem tudo net. Este é o argumento mais idiota, porque é uma rendição à amoralidade da internet. O padrão estético e moral da net é a selva. Ora, de uma instituição como Serralves espera-se um olhar civilizado que nos eleve acima da selva, um olhar que eduque, que civilize, que ensine, um olhar que caminhe num “crescendo”. Entrar em Serralves ou na Gulbenkian não é o mesmo que entrar na selva da net.
Comentários
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  • MARIA PEREIRA
    05 nov, 2018 Lisboa 21:01
    Os meus parabéns Henrique. Aproveito para deixar um testemunho pessoal vivido há muitos anos, a propósito do subir para a cadeira e ir buscar um livro "menos adequado". Só para nos situarmos hoje tenho 51 anos e os meus pais 81. Com os meus 12 anos, vivia numa família de classe média baixa, mas em que a mãe apesar de ajudante de cozinha, tinha uma fome de conhecimento que me levou a viver rodeada desde que nasci de grandes livros. Como rapariga que era, ficava mal ir brincar para a rua, pelo que passei toda a minha infância e juventude a "alimentar-me" de grandes livros! Voltando aos 12 anos: a minha mãe tinha vivido uma infância feliz no meio de um monte alentejano, mas em que tudo o que tivesse a ver com sexualidade era mais do que tabu. Assim sendo, e vendo a avidez com que a filha devorava livros, colocou no local mais alto do móvel do meu quarto um livro sobre sexualidade. Inevitavelmente veio ter às minhas mãos, na altura certa. Ficou a sensação de que estava a ver algo que não seria para a minha idade. E assim a minha mãe conseguiu que a sua filha tivesse a informação certa, à medida da sua curiosidade pelos livros e pelo mundo.
  • João Lopes
    28 set, 2018 Viseu 20:06
    A verdadeira arte exprime harmonia e beleza. A arte “porcográfica” ou “pornográfica” exprime despudoradamente paixões e imagens torpes de vidas sem sentido e que envergonham as pessoas que apreciam a beleza, a harmonia e o pudor…As exposições “porcográficas” vivem da publicidade gratuita, do escândalo e grande exposição pública…
  • Nuno
    28 set, 2018 Lx 12:14
    Concordo parcialmente. Sim, o tabu é essencial ao erotismo, mas não é essencial à arte, porque nesse caso já estaríamos a determinar o que deve a arte ser. E a arte deve ser o que cada criador de arte quiser exprimir. Sim, de uma instituição cultural espera-se um olhar não selvático. O problema está nas duas salas dentro da exposição de Mapplethorpe. Aviso à entrada havia, parece que o curador que desejava que houvesse, faz todo o sentido que exista. É a bolinha no ecrã. Dentro do espaço expositivo, não faz sentido haver avisos ou salas reservadas, se não tiver sido essa a opção do curador (deixemos de parte a opção do autor, visto que esse se finou em 1989). Porquê? Porque aí já não é a bolinha vermelho ao canto do ecrã, já são as cenas sexuais pixelizadas. Já é o discurso do curador condicionado. O discurso do curador está acima da ética e do bom senso? Não deve estar. Mas ele está a lidar com uma obra que tem elementos eventualmente chocantes, mas que é uma obra artística por si mesma, por isso não pode haver constrangimentos à forma com a obra é apresentada, sob pena de a estarmos a violar.