Opinião de Francisco Sarsfield Cabral
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Mentiras e precipitações de Trump

03 ago, 2018 • Opinião de Francisco Sarsfield Cabral


Tão ou mais preocupante do que o culto da pós-verdade por Trump é a sua tendência para ações impulsivas, irrefletidas e nada preparadas.

O jornal “Washington Post” dedica-se a registar as mentiras e as declarações enganosas do presidente Trump. A mais recente contagem, que vai até ao fim de julho, indicava 4 229 afirmações falsas ou enganadoras desde que Trump tomou posse, ou seja, quase oito por dia. Aliás, Trump começou por mentir logo sobre a sua tomada de posse, que ele

afirmou ter sido a mais concorrida de sempre, o que facilmente se verificou não ser verdade. Mas faltar à verdade não incomoda o personagem; talvez acredite mesmo naquilo que diz, considerando “fake news” (notícias falsas) as declarações de quem o contradiz. O que, tratando-se do líder da única superpotência mundial, não é propriamente tranquilizador.

Tão ou mais preocupante do que o culto da pós-verdade por Trump é a sua tendência para ações impulsivas, irrefletidas e nada preparadas. O seu encontro em Singapura com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, é um exemplo. Em vez de culminar um longo processo de negociação, esse encontro apenas lançou uma negociação, cujo desfecho não se conhecerá tão cedo, se é que ela vai para frente. Trump afirmou, na altura, que Kim se comprometera a eliminar as suas armas nucleares, bem como os seus mísseis de longo alcance (capazes da atingirem território americano). Mas nada ficou assente quanto ao processo de verificação dessa “desnuclearização”.

Semanas depois da cimeira EUA-Coreia do Norte, Mike Pompeo, Secretário de Estado (equivale a ministro dos Negócios Estrangeiros) foi a Pyongyang negociar. Segundo um comunicado do governo norte-coreano, as coisas correram o pior possível, tendo a delegação americana tomado posições próprias de gangsters… Ora, há dias, fontes dos serviços secretos dos EUA levantaram sérias suspeitas de a Coreia do Norte estar a construir novas rampas de lançamento para mísseis de longo alcance.

Um outro caso típico do estilo diplomático de Trump foi ter dito que encarava a possibilidade de se encontrar com o Presidente Rohani, do Irão, país que antes ameaçara com terríveis sanções. Trump não se terá dado conta que Rohani não é quem mais manda no Irão – o poder final pertence ao líder supremo, o ayatollah Ali Kahmenei. Rohani é um moderado e chefiou as negociações que levaram ao acordo nuclear – acordo do qual Trump se desligou. Ali Kahmenei não gostou do acordo, assim como os fanáticos guardas da revolução. O fracasso, pelo menos parcial, desse acordo internacional fragiliza a posição de Rohani e torna mais improvável que muçulmanos moderados possam mandar no Irão. Era óbvio que Rohani não poderia perder mais peso político, encontrando-se com Trump.

Claro, existe sempre a possibilidade de Trump, que aprecia e elogia os autocratas, não desejar uma evolução liberalizadora no Irão e querer “entalar” Rohani.

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